No dia 4 de outubro, data em que se celebra São Francisco, padroeiro do Meio Ambiente e do maior rio nascido em território brasileiro, a Coluna VinhosBahia apresenta o segundo artigo do “Especial Garziera 100 Safras”. O texto explora a profunda relação entre agricultores, videiras e natureza — topografia, clima e solo — ao longo de quatro décadas de vitivinicultura no Vale do São Francisco, conceito sintetizado pela palavra francesa “terroir”.
O vitivinicultor Jorge Garziera, protagonista do primeiro artigo da série, relembra o início desafiador da produção na região: “Criamos uma vitivinicultura sem referências, sem literatura”. O depoimento foi dado durante o evento “O Legado em 100 Safras”, realizado em 20 de setembro na Fazenda Milano, em Santa Maria da Boa Vista (PE). O encontro marcou o início da produção do Garziera 100 Safras, vinho tinto 100% Cabernet Sauvignon que homenageia a videira mais antiga ainda em produção no vale. O lançamento oficial está previsto para 2027, quando o rótulo deverá expressar plenamente o caráter do terroir local.
Uva de mesa x uva para processamento
A pesquisadora Patrícia Souza Leão, da Embrapa Semiárido, relembrou sua trajetória profissional no Grupo Garziera, referência na exportação de uva de mesa nas décadas anteriores. Ela destacou a importância histórica e cultural da preservação das videiras antigas: “Sem o parreiral de Cabernet Sauvignon, não haveria essa história. Isso não tem preço”.
Segundo ela, enquanto a produção de uvas de mesa prioriza aparência, textura e sabor, o cultivo voltado ao vinho valoriza o interior do fruto — aspecto essencial para a complexidade da bebida, como explicou o engenheiro agrônomo Adauto Quirino, do Grupo Verano Brasil.
IP Vale do São Francisco
Reconhecida como a primeira Indicação de Procedência (IP) para vinhos em região tropical do mundo, a IP Vale do São Francisco (IPVSF) abrange os municípios de Lagoa Grande, Petrolina e Santa Maria da Boa Vista (PE), além de Casa Nova e Curaçá (BA). A área reúne nove produtores, totalizando cerca de 500 hectares de vinhedos com 23 variedades de uvas viníferas.
Para receber o selo da IPVSF, os vinhos precisam ser produzidos, envelhecidos e engarrafados dentro da área delimitada e aprovados pelo Instituto do Vinho do Vale do São Francisco (Vinhovasf).
O diretor-executivo do Vinhovasf, Rodrigo Fabian, destacou as vantagens do clima semiárido aliado à irrigação: “Aqui é possível colher uvas quase todos os dias do ano. Com irrigação controlada, nutrimos a planta de forma precisa, como um soro aplicado na veia”. Ele ressalta que as diferenças climáticas entre os semestres permitem colher uvas com maior acidez e equilíbrio de taninos — ideais para vinhos de guarda.
Reconhecimento e diversidade
A professora Ana Paula Barros, do Instituto Federal do Sertão (IFSertão), destacou a evolução da enologia local e o reconhecimento crescente dos vinhos do vale. O Grupo Verano Brasil, por exemplo, conquistou quatro Medalhas de Ouro na Grande Prova Vinhos do Brasil 2025, com rótulos como Garziera Chardonnay e Chenin Blanc (blend), RioValley Moscatel Rosé, Garziera Reserva Malbec e Espumante RioValley Brut Rosé.
Ela também recordou a vitória histórica do Syrah Testardi 2010, produzido pela Miolo/Terranova, eleito o melhor vinho tinto nacional na época. “O terroir do Vale é multifacetado, não se resume a uma única característica. A potência e o potencial de guarda dos vinhos dependem do cuidado no campo e na vinificação”, afirmou.
Um legado em construção
A série “Especial Garziera 100 Safras” é composta por quatro artigos que celebram a trajetória e o simbolismo do vinho Garziera 100 Safras. Os próximos textos abordarão o trabalho dos enólogos no processo de vinificação e o olhar estético do design na criação do rótulo que representa a essência do Vale do São Francisco.
José Falcón Lopes é jornalista hispano-brasileiro, formado pela Facom-UFBA, e autor da Coluna VinhosBahia.
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