Um levantamento do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea), conduzido pelo economista Filipe Cavalcanti e divulgado pelo UOL, aponta que quase um terço das emendas parlamentares e verbas extras destinadas à atenção médica especializada no Brasil foi direcionado a entidades privadas nos últimos seis anos.
Entre 2019 e 2024, R$ 10,6 bilhões dos R$ 35 bilhões aplicados na área foram repassados a instituições como associações, fundações e Santas Casas. Os maiores beneficiados foram as Santas Casas (R$ 2 bilhões) e a Fundação Pio XII, que administra o Hospital de Amor em Barretos (SP), com quase R$ 1 bilhão.
O estudo inclui o primeiro ano do governo Jair Bolsonaro (PL) e os dois primeiros do governo Luiz Inácio Lula da Silva (PT). Segundo Cavalcanti, a pulverização dos recursos dificulta a transparência, já que entidades privadas não seguem as mesmas regras de prestação de contas que as públicas.
O levantamento destaca ainda que hospitais evangélicos e espíritas receberam R$ 128 milhões no período, crescimento de 357% — de R$ 9,5 milhões em 2019 para R$ 45,6 milhões em 2024.
As transferências “fundo a fundo” — do Fundo Nacional de Saúde para fundos municipais e estaduais — se tornaram as mais disputadas por parlamentares por não sofrerem atrasos. A distribuição, no entanto, foi desigual: enquanto alguns municípios receberam até R$ 747 por habitante, outros não tiveram nenhum repasse.
De acordo com o estudo, líderes como o ex-presidente da Câmara Arthur Lira (PP-AL) e o presidente do Senado, Davi Alcolumbre (União-AP), tiveram influência na divisão, favorecendo estados como Alagoas, Piauí, Roraima e Amapá.
Para Cavalcanti, regras mais rígidas seriam necessárias para corrigir distorções. “A melhor saída seria adotar maior rigidez na definição desses limites, para evitar que alguns municípios recebam valores muito superiores ao repasse regular do ministério”, concluiu.