Unicef alerta: obesidade infantil supera desnutrição pela primeira vez no mundo

O mundo alcançou um marco preocupante na saúde infantil. Pela primeira vez, a obesidade entre crianças e adolescentes ultrapassou a desnutrição como principal forma de má nutrição na faixa etária de 5 a 19 anos, segundo relatório divulgado nesta terça-feira (9) pelo Fundo das Nações Unidas para a Infância (Unicef).

“Hoje, quando falamos em má nutrição, não tratamos apenas de crianças com baixo peso”, afirmou Catherine Russell, diretora-geral do Unicef. “A obesidade é um problema crescente, com impactos profundos na saúde e no desenvolvimento infantil”, completou.

Os dados mostram a inversão da tendência. Entre 2000 e 2022, a taxa de baixo peso caiu de 13% para 10%, enquanto o número de jovens com sobrepeso dobrou, passando de 194 milhões para 391 milhões. Já a obesidade — forma mais grave da condição — triplicou, saltando de 3% para 8%, o que equivale a 163 milhões de pessoas.

A projeção da agência indica que, em 2025, 9,4% das crianças e adolescentes estarão obesos, superando os 9,2% com baixo peso — um total estimado de 188 milhões de jovens.

Causas e desafios

De acordo com o Unicef, o aumento da obesidade não resulta apenas de decisões individuais, mas reflete um “fracasso coletivo” diante da expansão da indústria de alimentos ultraprocessados. “As crianças são constantemente expostas à publicidade de produtos pouco saudáveis, até mesmo dentro das escolas”, explicou à AFP Katherine Shats, uma das autoras do estudo.

O relatório aponta que produtos industrializados, mais baratos e fáceis de encontrar, têm substituído alimentos naturais como frutas, verduras e proteínas. A entidade também alerta que a prática de atividade física, por si só, não é suficiente para compensar os efeitos de uma alimentação inadequada.

Tendência global

Embora os índices mais altos ainda estejam em países desenvolvidos — como Chile (27%) e Estados Unidos (21%) —, o avanço mais rápido da obesidade ocorre em nações mais pobres. Pequenos países insulares do Pacífico apresentam números alarmantes, como Niue (38%), Ilhas Cook (37%) e Nauru (33%).

Em locais afetados por crises humanitárias, a situação se agrava, com a coexistência de desnutrição e obesidade. O Unicef observa que alimentos ultraprocessados são frequentemente distribuídos por grandes empresas, priorizando a autopromoção em vez da nutrição adequada das populações vulneráveis.

Apelo por ação

O Unicef defende medidas urgentes para enfrentar a epidemia de obesidade infantil, como restrições à publicidade de alimentos não saudáveis, impostos sobre bebidas açucaradas, rotulagem mais clara e políticas agrícolas voltadas à produção de alimentos frescos.

“É urgente adotar políticas que permitam aos pais e cuidadores oferecer alimentos nutritivos e acessíveis às crianças”, reforçou Catherine Russell.

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