A violência cometida por parceiro íntimo figura como o quarto principal fator de risco para morte prematura e incapacidade entre mulheres de 15 a 49 anos em todo o mundo, conforme aponta um estudo publicado neste mês na revista científica The Lancet. Logo em seguida, a violência sexual contra crianças surge como a quinta maior ameaça à saúde feminina nessa faixa etária.
O levantamento faz parte da edição mais recente do relatório Global Burden of Disease (GBD), com base em dados de 2023, e é o primeiro a indicar que esses tipos de violência provocam uma perda de anos de vida saudável superior à causada por fatores clássicos da saúde pública, como hipertensão arterial e consumo de tabaco, quando a análise se restringe às mulheres em idade reprodutiva.
De acordo com a pesquisa conduzida por especialistas do Institute for Health Metrics and Evaluation (IHME), da Universidade de Washington, a violência por parceiro íntimo e a violência sexual contra crianças ficam atrás apenas de sexo desprotegido, desnutrição materna e infantil e deficiência de ferro entre os principais riscos à saúde de mulheres de 15 a 49 anos.
Em um recorte global que considera homens e mulheres de todas as idades, os fatores mais impactantes para a saúde continuam sendo pressão arterial elevada, poluição do ar, tabagismo, níveis altos de glicose no sangue, baixo peso ao nascer e gestações de curta duração.
No Brasil, os dados do GBD revelam que a violência sexual na infância e a violência praticada por parceiro íntimo ocupam, respectivamente, a segunda e a terceira posição entre os principais fatores de risco para mulheres nessa faixa etária. A obesidade aparece como o principal fator no país.
Para a autora principal do estudo, Luisa Sorio Flor, professora assistente do IHME, os resultados reforçam a necessidade de tratar a violência como uma questão central de saúde pública. Segundo ela, os dados contestam a ideia de que esses tipos de violência se limitam a problemas sociais ou ao campo da justiça criminal.
A pesquisa relaciona a violência contra a mulher a consequências como depressão, automutilação, infecção por HIV/Aids e feminicídio. Já a violência sexual na infância foi associada a pelo menos 14 condições de saúde, incluindo transtornos mentais graves, como esquizofrenia e transtorno bipolar.
Em 2023, aproximadamente 145 mil mulheres com 15 anos ou mais morreram no mundo em decorrência da violência por parceiro íntimo. O suicídio foi a principal causa dessas mortes, com cerca de 60 mil registros, número mais que duas vezes superior ao de feminicídios no mesmo período.
Os autores do estudo defendem que o combate à violência deve ultrapassar as ações de segurança pública, com investimento em prevenção e no acompanhamento contínuo das vítimas dentro dos sistemas de saúde.