A classe C representa 53% da população brasileira e ocupa posição central nas decisões econômicas, sociais e políticas do país. Para o pesquisador Renato Meirelles, presidente do Instituto Locomotiva e autor do livro “Brasil da maioria: 25 anos da classe C”, esse grupo não tem uma posição definida sobre a necessidade de um Estado maior ou menor, mas espera que os serviços públicos funcionem de forma eficiente e com menos burocracia.
Em entrevista à Agência Brasil, Meirelles afirmou que a classe C reúne a maioria dos consumidores, trabalhadores urbanos, pequenos empreendedores, usuários de serviços públicos e eleitores. Segundo ele, as transformações econômicas das últimas décadas ampliaram os sonhos e as expectativas desse segmento, mas a desaceleração do crescimento econômico provocou uma percepção de perda de velocidade nas melhorias de qualidade de vida.
De acordo com o pesquisador, famílias da classe C têm renda média de cerca de R$ 3,5 mil, considerando a soma dos rendimentos de todos os moradores de uma residência. Ele avalia que os processos de distribuição de renda iniciados nas últimas décadas fizeram com que esse grupo passasse a ter maior influência sobre os rumos da economia e da política brasileira.
Meirelles também destaca o impacto do Plano Real e da estabilidade econômica sobre os hábitos da população. Segundo ele, a redução da inflação ajudou os brasileiros a desenvolver perspectivas de longo prazo e a estabelecer novos objetivos, como viajar de avião e ter o primeiro universitário da família.
Esse processo teria se intensificado até aproximadamente 2010 e 2011, quando a economia passou a crescer em ritmo mais lento. Para Meirelles, a classe C passou a perceber uma desaceleração na evolução do poder de compra e no acesso a bens e serviços.
No mercado de trabalho, o pesquisador aponta uma mudança nas prioridades. Segundo ele, parte da classe C passou a valorizar mais a autonomia e o controle sobre o próprio tempo, o que contribuiu para o crescimento do empreendedorismo e do trabalho por aplicativos.
A pandemia de covid-19 também teria reforçado essa tendência. Meirelles cita o exemplo de pessoas que passaram a utilizar habilidades pessoais para gerar renda durante o período de isolamento e, posteriormente, optaram por manter atividades autônomas em vez de retornar ao emprego tradicional.
Para o pesquisador, a classe C também está exposta à desinformação, assim como o restante da sociedade. No entanto, ele avalia que as decisões desse grupo precisam ser compreendidas a partir de suas próprias experiências e necessidades.
No campo político, Meirelles afirma que a classe C está cansada da política tradicional e busca alternativas, embora ainda não saiba exatamente qual modelo deseja. Para ele, a principal expectativa em relação ao poder público não é necessariamente um Estado maior ou menor, mas um Estado capaz de entregar serviços de qualidade.
“Ela espera, em primeiro lugar, que o Estado funcione”, afirmou o pesquisador. Segundo Meirelles, a população também deseja menos burocracia, maior prestação de contas e uma relação mais direta entre governantes e cidadãos.