Perfis criados com IA vendem falsas curas e espalham desinformação sobre saúde

Perfis produzidos com inteligência artificial (IA) estão sendo utilizados nas redes sociais para disseminar informações falsas sobre saúde e comercializar produtos como e-books, suplementos e cosméticos. As contas recorrem a personagens ultrarrealistas, com nomes, idades e histórias de vida fictícias, para criar uma aparência de credibilidade e conquistar seguidores. As informações são do Estadão.

Uma investigação identificou mais de 70 perfis com esse tipo de característica em plataformas digitais. As personas exploram diferentes estereótipos, incluindo avós chinesas, indígenas, pessoas negras, moradores de áreas rurais, monges budistas e freiras.

Um dos casos é o perfil de “Vovó Mei”, apresentada como uma chinesa de 73 anos, especialista em medicina tradicional chinesa e moradora de Cotia, na Grande São Paulo. A conta possui quase 700 mil seguidores e comercializa um livro digital com supostos “remédios naturais”. A personagem, no entanto, é fictícia.

No Brasil, os perfis identificados utilizam principalmente e-books como fonte de renda. Uma das personas, apresentada como indígena, promete recuperar a saúde em sete dias por meio de um material vendido por R$ 50. Em outros países, os responsáveis pelas contas também comercializam suplementos e cosméticos.

Receitas sem comprovação científica

As publicações apresentam receitas caseiras como alternativas para doenças e condições que exigem acompanhamento médico. Entre as recomendações estão o uso de bicarbonato de sódio nos olhos para tratar catarata, chá de cebola roxa para reduzir a glicemia e chá de beterraba como substituto de medicamentos para hipertensão.

Especialistas alertam que não existem evidências científicas que comprovem essas promessas e destacam que algumas das práticas recomendadas podem oferecer riscos à saúde.

O hepatologista Raymundo Paraná, da Sociedade Brasileira de Hepatologia, também chama atenção para o consumo indiscriminado de ingredientes como a cúrcuma. Embora seu uso como tempero, em quantidades habituais, geralmente não represente risco, concentrações elevadas ou combinações com outras substâncias podem provocar efeitos adversos.

Os perfis também recorrem a narrativas conspiratórias para dar credibilidade às publicações. Médicos, farmácias e a indústria farmacêutica são frequentemente apresentados como responsáveis por esconder supostas “curas”. Frases como “isso não interessa às farmácias” e “os médicos não querem que você saiba” aparecem entre as estratégias utilizadas.

Pesquisadores apontam que essas narrativas combinam teorias da conspiração, espiritualidade e a ideia de que conhecimentos ancestrais teriam sido deliberadamente ocultados.

A construção das personagens também busca estabelecer uma conexão emocional com o público. Algumas biografias apresentam idade, cidade de origem, profissão e histórias sobre conhecimentos supostamente aprendidos com familiares.

Perfis crescem rapidamente

A velocidade de crescimento das contas também chama a atenção dos pesquisadores. Entre os 72 perfis analisados, 74,6% foram criados em 2026. Mesmo recentes, eles registram, em média, mais de 55 mil novos seguidores por mês.

“Vovó Mei”, criada em maio, chegou a quase 700 mil seguidores com aproximadamente 60 publicações.

Para pesquisadores, a expansão desses perfis demonstra como as ferramentas de IA reduziram as barreiras técnicas para a produção de conteúdos falsos. Personagens, vozes, vídeos e histórias podem ser produzidos rapidamente e com alto grau de realismo.

Como identificar conteúdos falsos

Especialistas recomendam observar alguns sinais antes de confiar em conteúdos sobre saúde publicados nas redes sociais. Movimentos artificiais do rosto, falta de sincronização entre voz e boca, pele e roupas excessivamente perfeitas, alterações nas mãos e objetos que mudam de forma ou desaparecem durante o vídeo podem indicar o uso de IA.

O áudio também pode apresentar sinais de manipulação. Vozes artificiais podem ter pouca variação de ritmo, emoção e intensidade, além de possíveis desencontros entre a fala e os movimentos da boca.

Mais importante, porém, é analisar o conteúdo da mensagem. Recomendações generalizadas, promessas de cura rápida, tom alarmista e afirmações de que determinada informação seria uma “verdade escondida” devem ser encaradas com desconfiança.

Também é importante verificar se o profissional apresentado realmente existe. No caso de médicos, é possível consultar o registro no Conselho Federal de Medicina (CFM) e conferir informações sobre formação e especialidades.

A associação entre o conteúdo e a venda de produtos também é um sinal de alerta. Os personagens criados por IA podem funcionar como uma porta de entrada para a comercialização de e-books, suplementos e outros produtos.

Pesquisadores afirmam que esse modelo transforma a desinformação em uma atividade comercial e pode explorar pessoas em situação de vulnerabilidade, como idosos, pacientes com problemas de saúde ou indivíduos que enfrentam dificuldades para obter atendimento médico.

Segundo o Estadão, a Meta informou que suas políticas proíbem desinformação prejudicial sobre saúde, incluindo conteúdos falsos sobre vacinas e publicações que promovam curas milagrosas capazes de colocar pessoas em risco. A empresa, entretanto, não respondeu especificamente sobre os perfis criados com IA.

Ainda de acordo com o Estadão, o Ministério da Saúde informou que monitora conteúdos falsos por meio do programa Saúde com Ciência e afirmou ter encaminhado à Polícia Federal, em março deste ano, uma denúncia contra perfis que disseminavam informações antivacina.

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