O governo de Donald Trump ampliou, ao longo dos últimos meses, a pressão diplomática sobre o Brasil por meio de medidas comerciais, sanções e exigências relacionadas à política interna brasileira. A mais recente revelação é a de que, durante as negociações sobre o tarifaço, os Estados Unidos apresentaram um documento com 21 pontos, incluindo a exigência de que o Brasil garantisse a participação de “dissidentes políticos” nas eleições presidenciais de 2026. O texto foi rejeitado pelo Itamaraty e, segundo autoridades brasileiras, não chegou a ser incorporado às negociações oficiais.
A proposta foi apresentada em outubro de 2025, quando Brasil e Estados Unidos negociavam uma saída para as tarifas adicionais de 50% impostas por Washington sobre produtos brasileiros. Além da questão eleitoral, o documento incluía pedidos relacionados à compra de aeronaves da Boeing, à exploração de minerais críticos e a regras para empresas de tecnologia. Segundo relatos de integrantes do governo brasileiro, o texto foi considerado inadequado por misturar questões comerciais com temas políticos e eleitorais.
A ofensiva havia começado meses antes. Em julho de 2025, Trump anunciou a tarifa de 50% sobre produtos brasileiros e, em carta enviada ao presidente Luiz Inácio Lula da Silva, relacionou a medida ao processo contra o ex-presidente Jair Bolsonaro, que classificou como uma “caça às bruxas”. O documento também criticou decisões do Supremo Tribunal Federal (STF) envolvendo plataformas digitais e liberdade de expressão.
No mesmo período, Washington adotou medidas diretamente contra integrantes do Judiciário brasileiro. Em julho de 2025, o Departamento do Tesouro dos EUA incluiu o ministro Alexandre de Moraes na lista de sanções baseada na legislação Global Magnitsky, com bloqueio de bens e restrições a transações sob jurisdição americana. A medida foi acompanhada pela revogação de vistos de Moraes e de familiares. A designação de Moraes, entretanto, foi retirada da lista de sanções em dezembro de 2025.
A pressão também passou a envolver o combate ao crime organizado. Em julho de 2026, o Tesouro americano sancionou brasileiros e empresas ligadas ao Primeiro Comando da Capital (PCC), alegando atuação da organização na lavagem de dinheiro proveniente do tráfico de drogas nos Estados Unidos. Em setembro, Trump afirmou que o Brasil não havia conseguido enfrentar adequadamente o PCC e o Comando Vermelho, que o governo americano passou a tratar como organizações terroristas estrangeiras.
Outro episódio de tensão diplomática ocorreu em agosto, quando os Estados Unidos revogaram o visto da embaixadora brasileira em Washington, Maria Luiza Ribeiro Viotti, em meio ao agravamento das relações entre os dois governos. A medida ocorreu depois de o governo brasileiro negar vistos a dois funcionários americanos que pretendiam participar de uma chamada “missão eleitoral” no país.
Em conjunto, as medidas mostram que a relação entre Washington e Brasília passou a envolver temas que vão além da agenda comercial tradicional. As ações americanas atingiram o comércio exterior, autoridades do Judiciário, segurança pública e questões relacionadas às eleições brasileiras. O governo Trump também vinculou publicamente parte de sua política para o Brasil ao tratamento dado a Jair Bolsonaro e às decisões do STF, enquanto o governo brasileiro rejeita interferências externas e sustenta a autonomia de suas instituições.
Quanto aos objetivos de Trump, os fatos documentados apontam para diferentes frentes de pressão: obter mudanças nas condições comerciais com o Brasil, defender interesses econômicos americanos, pressionar por alterações em questões relacionadas ao Judiciário e às eleições e ampliar a cooperação — ou cobrar mudanças — no combate ao crime organizado e ao tráfico internacional de drogas. A dimensão política dessas ações é especialmente evidente porque algumas das exigências apresentadas por Washington não estavam diretamente relacionadas ao comércio. Ao mesmo tempo, não é possível afirmar, apenas com base nesses episódios, que todas as medidas tenham um único objetivo ou que tenham sido formuladas exclusivamente para favorecer determinado grupo político brasileiro.