A volta do fantasma da AIDS no mundo e o aumento de casos de HIV no Brasil

Após décadas de avanços no tratamento e na prevenção do HIV, a Organização das Nações Unidas (ONU) voltou a alertar para o risco de retrocessos no enfrentamento da epidemia. Um novo relatório do Programa Conjunto das Nações Unidas sobre HIV/AIDS (UNAIDS) aponta que cortes no financiamento internacional, a redução de serviços de prevenção e políticas que aumentam a vulnerabilidade de grupos de risco podem comprometer conquistas obtidas ao longo dos últimos 40 anos.

Graças aos avanços científicos, o HIV deixou de ser considerado uma sentença de morte e passou a ser uma infecção crônica controlável com medicamentos antirretrovirais. Além disso, estratégias de prevenção, como a Profilaxia Pré-Exposição (PrEP) e a Profilaxia Pós-Exposição (PEP), ampliaram as formas de evitar novas infecções.

Apesar disso, a ONU alerta que a meta de eliminar a AIDS como ameaça à saúde pública até 2030 está ameaçada. Embora o número de mortes relacionadas à doença esteja no menor patamar dos últimos 30 anos, o relatório aponta que o enfraquecimento das políticas de prevenção e a redução dos investimentos internacionais colocam milhões de pessoas em situação de maior risco.

O Brasil continua sendo reconhecido internacionalmente pelo acesso gratuito ao tratamento oferecido pelo Sistema Único de Saúde (SUS), mas também figura entre os 21 países que registraram aumento no número de novos casos de HIV, sinalizando que o controle da epidemia enfrenta novos desafios.

Especialistas apontam que um dos fatores para o crescimento das infecções é a falsa sensação de segurança em relação ao vírus. As novas gerações não vivenciaram o período mais crítico da epidemia, nas décadas de 1980 e 1990, quando a AIDS apresentava alta mortalidade e poucas opções de tratamento. Com a eficácia dos medicamentos atuais, parte da população passou a enxergar o HIV como uma condição de fácil controle, reduzindo a adesão ao uso de preservativos.

As desigualdades sociais também contribuem para o aumento dos casos. A infecção continua atingindo de forma mais intensa pessoas em situação de vulnerabilidade social, especialmente populações de baixa renda, pessoas pretas e pardas e indivíduos com menor escolaridade. Nessas condições, fatores como insegurança alimentar, dificuldades de acesso aos serviços de saúde e racismo estrutural podem dificultar tanto a prevenção quanto o diagnóstico e a continuidade do tratamento.

Outro ponto destacado por especialistas é a redução das campanhas permanentes de conscientização voltadas, principalmente, ao público jovem. A menor frequência de ações educativas e de incentivo à testagem favorece o diagnóstico tardio, já que muitas pessoas convivem com o vírus por anos sem apresentar sintomas, mantendo a cadeia de transmissão.

O perfil epidemiológico da infecção também mudou nos últimos anos. O crescimento de novos casos é observado principalmente entre pessoas de 15 a 34 anos, faixa etária que concentra grande parte das novas infecções. Ao mesmo tempo, o número de diagnósticos entre pessoas com mais de 60 anos também aumentou, refletindo a manutenção da vida sexual ativa sem a incorporação do uso regular de preservativos por parte dessa população.

Para o UNAIDS, reverter esse cenário depende da retomada dos investimentos em prevenção, da ampliação do acesso aos testes, do fortalecimento das políticas públicas e da redução das desigualdades que dificultam o acesso aos serviços de saúde. A organização ressalta que, embora a ciência tenha fornecido ferramentas eficazes para controlar a epidemia, o sucesso do enfrentamento ao HIV depende da continuidade das ações de prevenção e do compromisso dos governos com o financiamento dessas políticas.

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