Bets ampliam investimentos na cultura e entram no debate sobre uso da Lei Rouanet

As empresas de apostas online, conhecidas como bets, ampliaram sua participação no financiamento da cultura brasileira e passaram a patrocinar festivais, shows, eventos e outros projetos por meio de investimentos diretos e da Lei Rouanet. O levantamento foi publicado pela Folha de S. Paulo.

Segundo a reportagem, o avanço das bets no setor cultural tem gerado preocupação entre autoridades e artistas, principalmente diante dos impactos sociais associados às apostas e do aumento das medidas destinadas a restringir a publicidade dessas empresas.

Na música e em grandes eventos, as casas de apostas já figuram entre os principais patrocinadores de iniciativas de grande alcance. A Superbet, uma das empresas autorizadas a operar no mercado brasileiro desde o fim de 2024, afirma ter destinado quase R$ 150 milhões a patrocínios culturais em 2025 e 2026. Entre os eventos apoiados estão o Rock in Rio, o Carnaval do Rio de Janeiro e o Lollapalooza.

A empresa também passou a utilizar recursos da Lei Rouanet. Dados da plataforma Salic, do Ministério da Cultura, mostram que empresas de apostas captaram R$ 6 milhões por meio do mecanismo em 2025. Em 2026, o valor chegou a R$ 5,8 milhões até o momento.

Entre os maiores investimentos está o da Kaizen Gaming, responsável pela marca Betano, que destinou cerca de R$ 5 milhões ao Réveillon de Copacabana. O patrocínio, porém, não poderá ser repetido na próxima festa de Ano-Novo. A Prefeitura do Rio de Janeiro proibiu a participação de empresas de apostas em eventos contratados, patrocinados ou realizados pelo poder público municipal.

A discussão ganhou força à medida que prefeituras e governos estaduais passaram a adotar medidas para limitar a publicidade das casas de apostas.

Artistas também reagiram à presença das bets no setor cultural. Durante o festival Village, no Rio de Janeiro, o logotipo da Superbet, patrocinadora do evento, foi coberto antes da apresentação da cantora Marisa Monte. Anitta, que também participou do festival, já havia declarado publicamente que não pretendia associar sua imagem ao setor de apostas.

O movimento 342 Artes, liderado pela produtora Paula Lavigne, mulher de Caetano Veloso, também passou a atuar contra a divulgação das bets. A campanha “Block no Tigrinho” reuniu artistas como Caetano Veloso, Emicida e Camila Pitanga em alertas sobre os riscos associados às apostas.

Ao mesmo tempo, artistas continuam participando de eventos financiados por empresas do setor. Caetano Veloso, por exemplo, se apresentou no festival Arena Brasileira, que recebeu recursos da Superbet.

Recursos via Lei Rouanet

Além dos patrocínios convencionais, o uso da Lei Rouanet por empresas de apostas passou a ser acompanhado pelo Ministério da Cultura. Dados do Salic indicam que os valores destinados pelo setor ainda representam uma pequena parcela do total captado pelo mecanismo, que movimentou R$ 3,4 bilhões em 2025.

Entre os projetos que receberam recursos de empresas de apostas estão festas em Maresias e Guarujá, a Oktoberfest de Blumenau, peças de teatro e planos de atividades de instituições culturais.

Além da Betano, também aparecem entre as empresas que destinaram recursos a projetos culturais por meio da Lei Rouanet marcas como Blaze, BetGo, Reals Bet, Bingo Bet, Esportes da Sorte, KTO, 7K e Estrelabet.

Ministério da Cultura avalia restrições

O Ministério da Cultura informou que acompanha os possíveis impactos da expansão das apostas online e avalia medidas para regulamentar ou restringir o uso de incentivos fiscais por empresas do setor em projetos culturais.

De acordo com a pasta, estão em análise possibilidades jurídicas e normativas para estabelecer regras específicas para o patrocínio de projetos culturais financiados por meio da Lei Rouanet.

O ministério também reforçou a posição do governo federal em favor da fiscalização, do controle e da regulamentação do mercado de apostas online.

Atualmente, a Lei Rouanet permite a participação de patrocinadores privados, desde que sejam cumpridos os critérios técnicos e as regras estabelecidas para os projetos. O mecanismo, no entanto, já prevê restrições específicas para determinados setores. Uma instrução normativa, por exemplo, impede a promoção e a divulgação de marcas de produtos de tabaco em projetos beneficiados pela lei.

O avanço das bets na cultura ocorre, portanto, em meio à expansão dos investimentos privados no setor e ao aumento da pressão por regras mais rígidas para a exposição e a publicidade das empresas de apostas no Brasil.

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