A economia brasileira chega às eleições de 2026 com um quadro marcado por indicadores positivos no mercado de trabalho e na atividade econômica, mas também por desafios fiscais e pelo elevado custo do crédito. No centro do debate estão três questões que afetam tanto as contas públicas quanto o orçamento das famílias: a dívida do governo, os juros e o endividamento privado.
Em agosto, o Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA), considerado a inflação oficial do país, registrou deflação de 0,32%. No acumulado de 12 meses, o índice ficou em 4,22%.
Ao mesmo tempo, o mercado de trabalho permanece aquecido. A taxa de desemprego estava em 5,3% no trimestre encerrado em julho, enquanto o número de ocupados alcançou patamar recorde.
O cenário, porém, não elimina as pressões sobre as famílias e as contas públicas.
O tamanho da dívida pública
Um dos principais desafios do próximo governo será administrar o crescimento da dívida pública e o custo de seu financiamento.
A Dívida Pública Federal chegou a R$ 9,29 trilhões em agosto, segundo o Tesouro Nacional. O custo médio acumulado nos 12 meses anteriores alcançou 12,59% ao ano.
Outro indicador utilizado para avaliar a situação fiscal é a Dívida Bruta do Governo Geral, que inclui União, estados e municípios. Em junho, ela estava em 81,9% do PIB, segundo dados do Banco Central.
A diferença entre os indicadores é importante: a Dívida Pública Federal corresponde aos débitos de responsabilidade do Tesouro Nacional, enquanto a dívida bruta do governo geral possui uma abrangência maior.
O problema fiscal não depende apenas do tamanho do estoque da dívida. Quando os juros são elevados, o governo precisa gastar mais para remunerar os títulos públicos. Em agosto, por exemplo, o custo médio da dívida federal subiu mesmo com a redução da parcela dos títulos com vencimento nos 12 meses seguintes.
Por que os juros são tão importantes?
A taxa básica de juros, a Selic, é definida pelo Banco Central e influencia o custo do dinheiro na economia. Quando os juros permanecem elevados, empréstimos, financiamentos e outras modalidades de crédito tendem a ficar mais caros.
O efeito também aparece nas contas públicas: uma parcela relevante da dívida é formada por títulos cuja remuneração está ligada à Selic ou a outros indicadores de juros.
Para as famílias, o impacto pode ser ainda maior. Em agosto, a inadimplência das famílias no crédito livre chegou a 8%, o maior nível da série histórica iniciada pelo Banco Central em 2011. A taxa média de juros do crédito livre para pessoas físicas alcançou 61,7% ao ano, enquanto o rotativo do cartão chegou a 444,9% ao ano.
Isso ajuda a explicar por que uma inflação relativamente baixa em determinado mês não significa, necessariamente, que o orçamento das famílias esteja folgado. Preços, renda, juros e dívidas são indicadores diferentes e podem se comportar de maneiras distintas.
Endividamento das famílias
O endividamento também se tornou um dos principais temas econômicos da eleição.
Em abril, 80,9% das famílias brasileiras estavam endividadas, segundo a Pesquisa de Endividamento e Inadimplência do Consumidor (Peic), da CNC, de acordo com levantamento divulgado pelo Senado.
Nos dados do Banco Central, o endividamento das famílias com o sistema financeiro, sem considerar o crédito habitacional, chegou a 49,9% da renda em julho. O comprometimento da renda com o pagamento das dívidas estava em 28,7%.
A diferença entre esses indicadores é importante: a Peic mede famílias que possuem algum tipo de dívida, enquanto as estatísticas do Banco Central relacionam o estoque de dívida ou o serviço da dívida à renda.
O que os candidatos propõem para a dívida pública?
Entre os principais candidatos, Lula (PT) e Flávio Bolsonaro (PL) apresentam estratégias diferentes para o ajuste das contas públicas.
O programa de Lula prevê responsabilidade fiscal e um ajuste gradual, com a meta de alcançar superávit primário de 1,3% do PIB até 2030. A proposta também combina controle das contas com manutenção de políticas sociais e aumento da tributação sobre parcelas de maior renda.
A equipe de Flávio Bolsonaro propõe um ajuste fiscal mais rápido, de 1,5% do PIB em 18 meses, associado a uma nova regra fiscal vinculada à relação entre dívida e PIB. O programa também menciona redução de despesas administrativas, privatizações e revisão de benefícios e estruturas do governo.
A principal diferença está no desenho do ajuste: enquanto a proposta de Lula enfatiza uma trajetória gradual e a preservação de políticas sociais, a equipe de Flávio defende uma correção fiscal mais acelerada e maior contenção do crescimento das despesas. A Reuters observa, porém, que os dois programas ainda deixam detalhes sobre medidas concretas a serem adotadas para atingir as metas.
E os juros?
Nenhum presidente define sozinho a taxa Selic. A decisão cabe ao Comitê de Política Monetária (Copom), do Banco Central, dentro do regime de metas de inflação.
Por isso, as propostas dos candidatos para reduzir os juros normalmente passam por outras questões: controle das contas públicas, redução de riscos fiscais, mudanças no sistema de crédito, aumento da concorrência bancária e medidas para estimular investimentos.
O programa de Lula associa responsabilidade fiscal a investimentos e desenvolvimento econômico e defende maior tributação sobre altas rendas.
A equipe de Flávio Bolsonaro relaciona a redução dos juros a um ajuste fiscal mais rápido, mudanças nas regras de gastos, redução da burocracia e privatizações.
Há ainda propostas de outros candidatos. Augusto Cury (Avante), por exemplo, apresenta como estratégia um pente-fino nos gastos públicos, combate à sonegação e revisão de benefícios fiscais. Seu assessor econômico, Luiz Carlos Hauly, afirma que a campanha pretende zerar o déficit primário no primeiro ano e buscar superávit posteriormente.
Como os candidatos tratam as dívidas das famílias?
Nesse ponto, as propostas são mais variadas.
O governo Lula lançou em 2026 uma nova etapa do Desenrola. O programa prevê a compra, pelo Tesouro, de carteiras de dívidas antigas de pessoas físicas, com recursos de até R$ 15 bilhões e possibilidade de renegociação de até R$ 150 bilhões em débitos.
Também foi prorrogado o Desenrola voltado a trabalhadores informais e autônomos. A iniciativa permite a renegociação de determinadas dívidas de crédito pessoal com juros limitados a 1,99% ao mês.
Essas medidas atuam principalmente sobre o estoque de dívidas já existentes. Outra questão é impedir que novas dívidas sejam contraídas a juros elevados, o que envolve política de crédito, concorrência bancária, educação financeira e condições macroeconômicas.
No programa de Flávio Bolsonaro, as propostas econômicas estão mais concentradas no ajuste fiscal, na redução da dívida pública, na reforma administrativa e na revisão da estrutura tributária. O plano não apresenta, com o mesmo nível de detalhamento do Desenrola, um programa específico de renegociação de dívidas das famílias.
O desafio que ficará para o próximo governo
O debate econômico da eleição envolve, portanto, problemas que estão interligados, mas não são iguais.
A inflação mede a variação dos preços. A Selic influencia o custo básico do dinheiro. A dívida pública mostra o volume de recursos que o governo deve. Já o endividamento das famílias representa compromissos financeiros do setor privado.
Um cenário de inflação controlada e emprego elevado pode coexistir com crédito caro e elevado endividamento. Da mesma forma, uma redução dos juros pode aliviar o custo de empréstimos, mas não resolve sozinha um desequilíbrio persistente nas contas públicas.
Por isso, as propostas apresentadas pelos candidatos combinam diferentes instrumentos: ajuste fiscal, revisão de despesas, mudanças tributárias, estímulo ao crescimento, renegociação de dívidas e medidas voltadas ao crédito.
A questão central para o próximo governo será definir como combinar essas medidas sem perder de vista os diferentes efeitos sobre inflação, dívida pública, investimento, emprego, renda e orçamento das famílias.