Guerra no Oriente Médio coloca petróleo acima de US$ 100 e amplia riscos para a economia global

A disparada do petróleo não pode ser explicada apenas pela atuação dos Houthis no Iêmen. O cenário atual envolve uma combinação de conflitos e interrupções de infraestrutura que atingem os principais corredores de exportação de energia do Oriente Médio. A guerra entre Estados Unidos e Irã, os ataques no Golfo, a situação no Mar Vermelho e a ofensiva dos Houthis no Iêmen passaram a se reforçar mutuamente, aumentando o prêmio de risco embutido no preço do petróleo.

O ponto mais sensível neste momento é o Estreito de Ormuz, por onde tradicionalmente passa uma parcela enorme do petróleo e do gás comercializados internacionalmente. A Agência de Informação de Energia dos Estados Unidos (EIA) estima que, no segundo trimestre de 2026, o fluxo de petróleo pelo estreito tenha caído para cerca de 4,9 milhões de barris por dia, contra 21,6 milhões no último trimestre de 2025.

O Bab el-Mandeb, entretanto, continua sendo uma peça importante desse quebra-cabeça. O estreito conecta o Golfo de Áden ao Mar Vermelho e é a passagem marítima que permite a ligação entre o oceano Índico, o Canal de Suez e os mercados europeus. A EIA estima que 8,1 milhões de barris por dia tenham atravessado o Bab el-Mandeb no segundo trimestre de 2026.

O que querem os Houthis

Os Houthis, também conhecidos como Ansar Allah, são um movimento político e militar originário do norte do Iêmen. O grupo conquistou a capital, Sanaa, em 2014 e desde então disputa o controle do país com forças apoiadas por diferentes atores regionais.

A organização mantém uma relação estratégica com o Irã e integra aquilo que Teerã apresenta como o chamado “Eixo da Resistência”. Essa aproximação não significa que os Houthis sejam simplesmente uma força controlada diretamente pelo governo iraniano: o movimento possui sua própria estrutura política, militar e objetivos dentro do conflito iemenita.

A estratégia dos Houthis combina o controle territorial no Iêmen com a capacidade de ameaçar rotas marítimas e infraestrutura energética. Em 2023 e 2024, o grupo passou a atacar embarcações no Mar Vermelho, alegando que pretendia pressionar Israel por causa da guerra em Gaza. Os ataques levaram diversas companhias de navegação a evitar o Bab el-Mandeb e a redirecionar navios pelo Cabo da Boa Esperança, aumentando tempo e custo das viagens.

O movimento ganhou ainda mais importância em 2026. Segundo informações recentes, os Houthis avançaram sobre áreas estratégicas da costa do Mar Vermelho, incluindo o porto de Mokha, e passaram a ameaçar diretamente infraestrutura e exportações de petróleo da Arábia Saudita.

Isso transforma o Bab el-Mandeb em algo maior do que um problema localizado no Iêmen. Qualquer ameaça persistente à passagem pode provocar aumento dos custos de transporte, seguros marítimos e fretes, além de obrigar empresas a buscar rotas alternativas.

Por que 32 quilômetros importam tanto

O Bab el-Mandeb é um exemplo clássico dos chamados “chokepoints” — gargalos geográficos pelos quais passa uma quantidade desproporcional do comércio mundial.

O problema não é apenas quanto petróleo passa fisicamente pelo estreito. É também o que acontece quando os navios deixam de utilizá-lo.

Um petroleiro que evita o Bab el-Mandeb pode precisar contornar toda a África. Isso significa milhares de quilômetros adicionais, mais combustível consumido, mais tempo de viagem, necessidade de mais embarcações para manter o mesmo fluxo comercial e aumento do preço do seguro.

A EIA calcula que os ataques dos Houthis iniciados no fim de 2023 reduziram drasticamente o fluxo pelo Bab el-Mandeb. No primeiro semestre de 2025, aproximadamente 4,2 milhões de barris por dia passaram pelo estreito, cerca da metade do volume registrado em 2023.

O efeito também alcança o Canal de Suez. O sistema Suez-SUMED transportava aproximadamente 4,9 milhões de barris por dia no primeiro semestre de 2025, igualmente cerca da metade dos níveis observados em 2023. 

O choque do petróleo

O petróleo é diferente de muitos outros produtos porque está incorporado praticamente em toda a economia: transporte, agricultura, indústria química, geração de energia, aviação, logística e produção de bens.

Quando o petróleo sobe, o primeiro efeito aparece nos combustíveis. Depois, o aumento chega aos custos de transporte e produção. Empresas tentam repassar parte desse aumento aos preços finais, elevando a inflação.

É justamente esse mecanismo que preocupa os bancos centrais.

A Agência Internacional de Energia (IEA) informou em setembro que as interrupções no Oriente Médio reduziram suas estimativas de oferta mundial de petróleo para 2026 para 100,7 milhões de barris por dia, 5,7 milhões abaixo do ano anterior. A entidade também afirmou que a normalização dos fluxos de petróleo do Oriente Médio deve ficar para 2027.

O choque já aparece com força nos derivados. Segundo a IEA, as exportações líquidas de diesel e gasóleo dos países do Golfo ficaram em agosto em apenas 390 mil barris por dia, pouco mais de um quarto do nível anterior à guerra.

Isso é particularmente importante porque diesel é um combustível essencial para caminhões, máquinas agrícolas, navios, geradores e indústria.

O dilema dos bancos centrais

O petróleo cria um problema particularmente difícil para os bancos centrais: ele pode produzir inflação justamente quando a economia está perdendo força.

Se o banco central aumenta os juros para combater a inflação, encarece crédito, investimentos, financiamento imobiliário e consumo. Isso reduz a demanda e pode ajudar a controlar os preços, mas também pode aprofundar uma desaceleração econômica.

Se mantém os juros baixos diante de um choque de petróleo, corre o risco de permitir que o aumento dos combustíveis contamine outros preços.

Nos Estados Unidos, esse dilema já aparece nas declarações do Federal Reserve. Em 22 de setembro, a presidente do Fed de Boston, Susan Collins, defendeu a elevação da taxa básica em 0,25 ponto percentual, citando riscos persistentes de inflação e mencionando choques de oferta relacionados às tensões geopolíticas.

Portanto, a ideia de que o petróleo simplesmente “faz o Fed subir os juros” é uma simplificação. A decisão monetária depende de inflação, mercado de trabalho, expectativas e atividade econômica. O petróleo é um dos fatores que podem tornar essa decisão mais difícil.

O efeito sobre a economia mundial

O primeiro impacto é a inflação. O segundo é a redução da renda disponível.

Uma família que passa a gastar mais com gasolina ou diesel tem menos dinheiro para outros produtos e serviços. Para empresas, combustível e frete mais caros comprimem margens ou são repassados aos consumidores.

O terceiro efeito é sobre o comércio internacional. Rotas marítimas mais longas significam produtos mais caros e cadeias de suprimentos menos eficientes.

O quarto é financeiro. Petróleo mais caro pode aumentar as expectativas de inflação, pressionar títulos públicos e modificar as decisões dos investidores.

Há ainda uma consequência particularmente importante para países importadores de energia: a transferência de renda para os produtores de petróleo. Países que precisam importar grandes quantidades de petróleo podem sofrer deterioração de suas contas externas, enquanto exportadores recebem mais receita.

Por outro lado, produtores e empresas petrolíferas podem se beneficiar de preços elevados, embora isso dependa de seus custos, capacidade de produção e condições fiscais.

E o Brasil?

O Brasil possui uma posição diferente da de países altamente dependentes de importações de petróleo. É um grande produtor e exportador, especialmente graças ao pré-sal.

Mas isso não significa imunidade.

O preço internacional influencia os combustíveis, a receita de exportações, o câmbio e as contas das empresas do setor. Além disso, o Brasil importa determinados derivados e precisa considerar a capacidade de suas refinarias.

O diesel é especialmente importante. Ele movimenta praticamente toda a cadeia de transporte rodoviário brasileira e uma parcela significativa da atividade agrícola.

Assim, um petróleo internacional persistentemente caro pode chegar ao consumidor brasileiro mesmo quando o país produz grandes volumes de petróleo.

A dimensão política

O petróleo também funciona como instrumento de poder.

Para os Estados Unidos e seus aliados, garantir a circulação pelo Golfo Pérsico, pelo Mar Vermelho e pelo Mediterrâneo é uma questão de segurança econômica.

Para o Irã, a capacidade de ameaçar rotas marítimas representa uma forma de pressão estratégica muito maior do que seu peso econômico isoladamente poderia sugerir.

Para os Houthis, controlar território no Iêmen e possuir capacidade de ameaçar o tráfego marítimo aumenta seu peso nas negociações sobre o futuro do país e sobre o equilíbrio regional.

Para a Arábia Saudita, a questão é ainda mais direta: ataques a instalações petrolíferas e rotas de exportação atingem uma das bases econômicas do país. Informações recentes apontam que os Houthis intensificaram ataques contra infraestrutura saudita, enquanto Riad tenta restabelecer rotas alternativas de exportação.

E há uma dimensão global: quanto mais caro fica o petróleo, maior a pressão sobre governos que precisam subsidiar combustíveis, conter inflação ou proteger consumidores.

O que pode acontecer daqui para frente

O comportamento do petróleo dependerá menos de uma única declaração política e mais de três variáveis: duração das interrupções de oferta, segurança das rotas marítimas e possibilidade de uma acomodação diplomática no conflito entre Estados Unidos e Irã.

O mercado já mostrou como é sensível a essas notícias. Em 22 de setembro, o Brent chegou a ser negociado abaixo de US$ 100 diante de sinais de possível avanço diplomático entre Washington e Teerã.

Ao mesmo tempo, a IEA alerta que, se as interrupções persistirem e os estoques comerciais continuarem caindo, poderão ser necessários preços mais altos e uma redução adicional da demanda para equilibrar o mercado.

Isso resume o principal risco do atual cenário: não é necessário que todo o petróleo do Oriente Médio desapareça do mercado para provocar uma crise. Basta que uma parcela relevante da oferta fique inacessível por tempo suficiente para elevar custos, reduzir estoques e aumentar o prêmio de risco.

O Oriente Médio, portanto, não está apenas determinando o preço de um barril. Está colocando à prova a capacidade da economia mundial de absorver simultaneamente um choque de energia, uma crise logística, inflação persistente e uma escalada geopolítica.

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