Marçal associa religiões afro-brasileiras a fracasso e ignora perfil religioso da Bahia

O empresário Pablo Marçal voltou a provocar repercussão nas redes sociais após fazer declarações ofensivas contra praticantes de religiões de matriz africana. Durante entrevista ao canal BNTV, ele mencionou a Bahia ao responder se teria medo de “macumbaria”.

“Se macumba funcionasse, a Bahia era Dubai”, afirmou Marçal.

Na mesma entrevista, o empresário associou as religiões de matriz africana a fracasso financeiro e inveja. “Todo macumbeiro é um derrotado na vida. É gente invejosa e que não prospera”, declarou.

Marçal também criticou pessoas que, segundo ele, recorrem a práticas religiosas com o objetivo de prejudicar quem alcançou prosperidade. As declarações circularam nas redes sociais e provocaram reações.

Além do caráter ofensivo das afirmações, a associação feita por Marçal encontra pouco respaldo quando confrontada com os dados disponíveis sobre o perfil religioso brasileiro. O Censo 2022 do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) mostra que a Bahia está entre os estados em que as religiões de matriz africana têm presença relevante. No estado, 1% da população de 10 anos ou mais declarou seguir umbanda ou candomblé, proporção superior à registrada no Nordeste como um todo, de 0,6%.

Isso não significa, contudo, que umbanda e candomblé sejam as religiões predominantes na Bahia. O catolicismo continua sendo o grupo religioso mais numeroso no estado, com 56,98% da população de 10 anos ou mais, seguido pelos evangélicos, com 23,35%. Pessoas que declararam não ter religião representam 12,91%, enquanto espíritas correspondem a cerca de 1%.

No Nordeste, o predomínio católico é ainda mais expressivo. Segundo o Censo 2022, 63,9% da população de 10 anos ou mais se declarou católica, enquanto 22,5% se identificou como evangélica. Umbanda e candomblé aparecem com 0,6%, e os espíritas, com 0,8%.

Em escala nacional, os dados também mostram que a maior concentração proporcional de pessoas que se declaram umbandistas ou candomblecistas não está no Nordeste. O Sul apresentou 1,6%, seguido pelo Sudeste, com 1,4%. No Nordeste, o percentual foi de 0,6%.

Ainda assim, a Bahia se destaca culturalmente pela presença histórica do candomblé e de outras tradições de matriz africana. O fato de essas religiões representarem uma parcela minoritária da população não diminui sua relevância cultural, histórica e social no estado.

Nesse contexto, a tentativa de transformar uma tradição religiosa em sinônimo de fracasso financeiro revela mais sobre o argumento utilizado pelo empresário do que sobre a realidade religiosa brasileira. A afirmação, além de ofensiva, é uma generalização que simplesmente não se sustenta diante dos dados disponíveis.

Marçal e as eleições de 2026

As declarações ocorrem em meio à movimentação política de Marçal para as eleições de 2026. O empresário enfrenta, porém, obstáculos na Justiça Eleitoral. O Tribunal Regional Eleitoral de São Paulo (TRE-SP) manteve sua condenação por uso indevido dos meios de comunicação durante a campanha para a Prefeitura de São Paulo, em 2024.

Com a decisão, permanece a determinação de oito anos de inelegibilidade, o que, na prática, impede Marçal de disputar eleições até 2032. O caso envolve a utilização de redes sociais e a monetização de conteúdos durante a campanha.

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