Meio ambiente ainda divide candidatos, mas planos de governo deixam lacunas sobre desmatamento e petróleo

O combate ao desmatamento, a preparação do Brasil para eventos climáticos extremos e o futuro da exploração de petróleo estão entre os principais desafios ambientais que deverão ser enfrentados pelo próximo governo federal. Apesar de aparecerem nos planos de diferentes candidatos à Presidência, os temas recebem tratamentos distintos e, em alguns casos, são abordados de forma genérica.

Uma análise dos programas de governo de seis candidaturas — Luiz Inácio Lula da Silva (PT), Flávio Bolsonaro (PL), Ronaldo Caiado (PSD), Romeu Zema (Novo), Renan Santos (Missão) e Hertz Dias (PSTU) — realizada pela organização Política por Inteiro aponta diferenças importantes na forma como os candidatos tratam desmatamento, mudanças climáticas, transição energética e adaptação a eventos extremos.

No caso do desmatamento, há uma convergência entre boa parte das candidaturas em torno da necessidade de combater a derrubada ilegal de florestas, embora as metas e os instrumentos propostos sejam diferentes.

Lula estabelece a meta de zerar o desmatamento líquido até 2030 e associa a política ambiental à proteção de vegetação nativa, regularização fundiária, unidades de conservação, povos indígenas, comunidades tradicionais e desenvolvimento da bioeconomia. O programa também prevê medidas de adaptação climática e planos para enfrentar eventos como ondas de calor e enchentes.

Flávio Bolsonaro estabelece como compromisso zerar o desmatamento ilegal até 2029. A proposta concentra parte das medidas em fiscalização, monitoramento e combate aos crimes ambientais, além de políticas voltadas à infraestrutura e à prevenção de desastres.

Romeu Zema também defende o desmatamento ilegal zero, mas sem estabelecer prazo para alcançar a meta. Seu programa aborda a questão climática principalmente pela perspectiva de gestão de riscos, infraestrutura e planejamento urbano.

Ronaldo Caiado apresenta um eixo específico para a Amazônia e propõe medidas de fiscalização, regularização fundiária, bioeconomia e proteção territorial, mas não estabelece uma meta de eliminação do desmatamento ilegal. O candidato também defende investimentos em mapeamento de riscos, sistemas de alerta e infraestrutura para adaptação a eventos extremos.

Hertz Dias não estabelece uma meta específica para zerar o desmatamento, mas propõe recuperação de áreas degradadas e mudanças relacionadas à política fundiária e produtiva. O programa também prevê medidas de prevenção e redução de riscos provocados por enchentes e deslizamentos.

Já Renan Santos não apresenta, no plano analisado, uma proposta específica de combate ao desmatamento. A agenda ambiental aparece principalmente relacionada à infraestrutura, ao setor agropecuário, à mineração e à energia.

O petróleo na margem equatorial

A exploração de petróleo é outro ponto de divergência. Embora a margem equatorial seja uma das áreas de maior interesse da indústria petrolífera brasileira, o tema não aparece de forma específica nos seis planos de governo analisados pelo Instituto Aimara. O levantamento aponta que nenhum dos documentos menciona diretamente a Margem Equatorial ou a Foz do Amazonas, mesmo entre candidaturas que defendem a ampliação da exploração de petróleo e gás.

Na prática, os candidatos apresentam posições mais gerais sobre petróleo e transição energética.

Lula mantém petróleo e gás dentro de uma estratégia de transição para uma economia de baixo carbono, ao mesmo tempo em que defende a expansão das fontes renováveis e dos biocombustíveis. O presidente também afirmou recentemente que o Brasil continuará pesquisando novas reservas, incluindo áreas da margem equatorial.

Caiado também atribui importância ao petróleo e ao gás e propõe utilizar receitas do setor para financiar investimentos em infraestrutura energética, ciência, tecnologia e adaptação climática.

Zema relaciona petróleo e gás principalmente à segurança energética, à produção e à concorrência de mercado. Flávio Bolsonaro apresenta uma posição favorável à expansão da produção e do uso desses combustíveis, ao mesmo tempo em que propõe investimentos em biocombustíveis e eletrificação. Renan Santos inclui petróleo e gás em uma estratégia mais ampla que também envolve energia nuclear e hidrogênio.

Em sentido diferente, Hertz Dias, candidato do PSTU, é o único entre os seis planos analisados que propõe explicitamente interromper novas fronteiras de exploração de petróleo, incluindo a margem equatorial.

A ausência de uma posição detalhada sobre a margem equatorial nos programas é relevante porque a Agência Nacional do Petróleo (ANP) aprovou, em junho, a indicação de 86 blocos exploratórios da região para estudos visando futuros ciclos de oferta. Os blocos estão distribuídos pelas bacias da Foz do Amazonas, Pará-Maranhão e Barreirinhas.

Adaptação aos eventos extremos

Outro ponto que ganha importância diante do aumento dos eventos climáticos extremos é a capacidade de adaptação do país.

O programa de Lula prevê um Plano Nacional de Adaptação e planos estaduais e municipais voltados a riscos como calor extremo e eventos climáticos. Também propõe infraestrutura verde e a incorporação dos riscos climáticos ao planejamento energético.

Caiado propõe medidas como mapeamento de áreas de risco, sistemas de alerta, drenagem, contenção e soluções baseadas na natureza. Flávio Bolsonaro concentra parte de suas propostas em infraestrutura, Defesa Civil, barragens, reservatórios e monitoramento, especialmente no Nordeste. Zema também apresenta medidas relacionadas a infraestrutura, monitoramento e planejamento urbano.

No caso de Renan Santos, não há uma agenda específica de adaptação climática estruturada no programa analisado. Hertz Dias aborda prevenção e redução de riscos, incluindo enchentes e deslizamentos, mas sem estabelecer a adaptação climática como eixo formal do plano.

O que falta nos planos

Além das diferenças entre os candidatos, análises independentes identificam lacunas comuns. Um levantamento do Instituto Aimara aponta que nenhum dos seis planos analisados informa quanto pretende gastar especificamente com políticas ambientais. Cinco defendem o aumento da fiscalização, mas nenhum apresenta proposta de contratação de fiscais ambientais. Os dois planos que estabelecem metas de desmatamento também não especificam qual sistema oficial será utilizado para medir o cumprimento dessas metas.

Outro ponto destacado é a falta de uma trajetória clara para reduzir a dependência dos combustíveis fósseis. A análise da Política por Inteiro aponta que, nos programas examinados, a transição energética é frequentemente apresentada como diversificação da matriz, sem um cronograma definido para a redução do uso de petróleo e gás.

Isso coloca uma questão central para o próximo governo: como conciliar a exploração de recursos fósseis, que permanece relevante para a economia e para a segurança energética, com as metas de redução de emissões e de adaptação às mudanças climáticas.

O Brasil já possui instrumentos nacionais de política climática. O Plano Clima 2024–2035 é apresentado pelo governo federal como o principal instrumento para orientar ações de redução de emissões e adaptação aos impactos da mudança do clima.

Os dados oficiais também mostram que o desmatamento vem caindo em diferentes biomas. Segundo o governo federal, os alertas de desmatamento na Amazônia recuaram 36% no período de agosto de 2025 a julho de 2026, enquanto o Prodes registrou redução também em outros biomas.

O desafio eleitoral, portanto, não está apenas em declarar compromissos ambientais, mas em definir metas mensuráveis, prazos, recursos, mecanismos de fiscalização e formas de conciliar desenvolvimento econômico, produção de energia e redução das emissões.

É nesse ponto que a discussão sobre desmatamento, adaptação climática e exploração de petróleo ganha dimensão estratégica: as escolhas do próximo governo deverão determinar não apenas quais atividades econômicas serão estimuladas, mas também como o país pretende responder aos riscos climáticos que já afetam diferentes regiões brasileiras.

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