São Paulo, Minas Gerais e Rio de Janeiro formam uma espécie de “Triângulo das Bermudas” da eleição presidencial de 2026. Juntos, os três estados concentram 63,3 milhões de eleitores, o equivalente a 39,9% do eleitorado brasileiro. São Paulo responde sozinho por 21,48% dos eleitores, Minas Gerais por 10,32% e o Rio de Janeiro por 8,10%.
Mais do que o tamanho do eleitorado, o peso do trio está na capacidade de produzir uma disputa competitiva. Nas pesquisas estaduais da Quaest divulgadas em agosto, Lula e Flávio Bolsonaro apareceram tecnicamente empatados nos três estados. Em São Paulo, Flávio tinha 30% e Lula, 29%. Em Minas Gerais, o senador aparecia com 31%, contra 30% do presidente. No Rio de Janeiro, Flávio registrava 31%, ante 29% de Lula.
Esse equilíbrio transforma o Sudeste em uma região decisiva para a disputa. A eleição, porém, não reproduz simplesmente a fotografia de 2022. Há continuidade da força bolsonarista nos três estados, mas também sinais de que Lula conseguiu reduzir distâncias em territórios que deram vantagem a Jair Bolsonaro na eleição anterior.
O precedente de 2022
No segundo turno de 2022, Jair Bolsonaro venceu em São Paulo e no Rio de Janeiro e perdeu por uma margem mínima em Minas Gerais. Em São Paulo, Bolsonaro recebeu 55,24% dos votos válidos, contra 44,76% de Lula. No Rio, o placar foi de 56,53% a 43,47%. Já em Minas Gerais, Lula venceu por apenas 50,20% a 49,80%.
O resultado mineiro é especialmente importante porque o estado costuma ser tratado como um termômetro da eleição nacional. Em 2022, a diferença foi de apenas 49,6 mil votos a favor de Lula, enquanto São Paulo e Rio produziram vantagens expressivas para Bolsonaro.
Somados, os três estados deram a Bolsonaro cerca de 25,8 milhões de votos no segundo turno de 2022, contra aproximadamente 21,9 milhões de Lula. A vantagem bolsonarista no trio ficou próxima de 3,9 milhões de votos. No resultado nacional, entretanto, Lula terminou eleito com 50,90% dos votos válidos, contra 49,10% de Bolsonaro — diferença de pouco mais de 2,1 milhões de votos.
Isso ajuda a explicar a importância estratégica do “triângulo”: uma mudança relativamente pequena na distribuição dos votos nesses três estados pode alterar significativamente o resultado nacional.
São Paulo: a fortaleza que deixou de ser uma margem confortável
São Paulo continua sendo o principal território da direita na disputa presidencial, mas os números atuais mostram uma situação diferente daquela de 2022. Naquele ano, Bolsonaro terminou o segundo turno com vantagem de 10,48 pontos percentuais sobre Lula no estado.
Agora, a Quaest encontrou Flávio com apenas um ponto de vantagem no primeiro turno: 30% a 29%, dentro da margem de erro. Em um cenário com Pablo Marçal, os dois aparecem empatados em 30%.
Isso não significa que São Paulo tenha se tornado um estado lulista. Pelo contrário: a avaliação do governo federal é negativa entre uma parcela expressiva dos paulistas, com 48% classificando a administração como negativa e 58% declarando desaprová-la na pesquisa de agosto.
O fenômeno é outro: o bolsonarismo mantém uma base forte, mas a vantagem que Bolsonaro construiu em 2022 não se reproduz automaticamente para Flávio. O senador precisa transformar a popularidade do sobrenome Bolsonaro em voto próprio e, ao mesmo tempo, enfrentar a presença de outros candidatos de direita.
É nesse ponto que o palanque estadual ganha importância. Tarcísio de Freitas, governador e candidato à reeleição, permanece como uma das principais referências da direita paulista e tem aparecido ao lado de Flávio em agendas políticas. Ao mesmo tempo, Lula tenta fazer de Fernando Haddad, candidato do PT ao governo paulista, o principal contraponto ao governador.
O problema para Flávio é que Tarcísio possui projeto político próprio. O governador é forte nas pesquisas para permanecer no cargo — em levantamento recente, aparece com 53,2% contra 42,6% de Haddad em um eventual segundo turno — e seu eleitorado não necessariamente se comporta de forma idêntica na eleição presidencial.
Minas Gerais: o verdadeiro estado-pêndulo
Minas talvez seja o território mais estratégico do trio. Em 2022, Lula venceu por uma diferença inferior a 0,5 ponto percentual. Em 2026, a Quaest encontrou novamente um cenário praticamente dividido: Flávio com 31% e Lula com 30% no primeiro turno.
A peculiaridade mineira é que a disputa presidencial não está completamente subordinada à disputa pelo governo estadual. O senador Cleitinho Azevedo, do Republicanos, aparece na liderança da corrida pelo governo e declarou apoio a Flávio Bolsonaro para a Presidência, embora não tenha formado uma coligação com o PL. Flávio, por sua vez, lançou Flávio Roscoe como candidato do PL ao governo mineiro.
Essa configuração cria uma situação interessante: Flávio pode contar com uma liderança estadual que tem forte apelo entre o eleitorado de direita, mas não controla integralmente o palanque estadual. O PL possui candidato próprio, enquanto Cleitinho mantém sua candidatura e seu capital político.
Do lado de Lula, o PT lançou Patrus Ananias para o governo. A candidatura surgiu depois de dificuldades para construir uma aliança mais ampla e foi tratada pelo próprio Patrus como uma escolha feita a pedido de Lula.
O cenário revela uma característica histórica de Minas: o eleitorado pode separar suas escolhas. Um eleitor pode votar em um candidato de direita para governador e escolher Lula ou outro candidato para presidente, ou fazer o movimento contrário. Por isso, o desempenho dos candidatos estaduais não pode ser simplesmente transferido para a disputa presidencial.
Rio de Janeiro: onde o bolsonarismo tem uma vantagem estrutural
O Rio é o estado em que a força eleitoral do bolsonarismo aparece de forma mais clara. Em 2022, Bolsonaro venceu Lula por 56,53% a 43,47% no segundo turno. Na capital, também venceu, com 52,66% dos votos válidos.
Na pesquisa Quaest de agosto, Flávio aparecia com 31%, contra 29% de Lula. A diferença, entretanto, estava dentro da margem de erro de três pontos percentuais.
O Rio também é importante porque Flávio construiu ali um palanque mais diretamente ligado ao seu grupo político. O PL definiu Douglas Ruas como candidato ao governo, enquanto Cláudio Castro, também do PL, deixou o Executivo para disputar o Senado. A composição foi articulada pelo próprio Flávio com PP e União Brasil.
Do lado de Lula, a situação é mais complexa. Eduardo Paes, candidato do PSD ao governo, conta com o apoio do presidente, mas procura preservar uma identidade própria na eleição estadual. Em agosto, Paes chegou a nacionalizar sua campanha e defender explicitamente a vitória de Lula, mas sua aliança também reúne forças políticas que não estão necessariamente alinhadas ao PT em nível nacional.
Esse é outro exemplo de como os palanques estaduais podem ajudar, mas não funcionam como uma transferência automática de votos. Paes lidera a disputa pelo governo do Rio, mas seu eleitorado não é necessariamente equivalente ao eleitorado de Lula.
O efeito dos palanques
A principal disputa no “Triângulo das Bermudas” não é apenas entre Lula e Flávio. É também pela capacidade de cada candidato presidencial de transformar alianças estaduais em votos para a Presidência.
Flávio parte de uma vantagem importante: nos três estados, existe uma estrutura política de direita relativamente consolidada. Em São Paulo, conta com a força de Tarcísio; no Rio, possui um palanque diretamente organizado pelo PL; e em Minas recebe o apoio de Cleitinho, apesar da existência de uma candidatura própria do partido ao governo.
Lula, por sua vez, tenta compensar a força da direita com candidatos próprios ou aliados nos três estados: Haddad em São Paulo, Patrus em Minas e Paes no Rio. O problema é que nenhum desses três palanques apresenta, hoje, a mesma homogeneidade política. Haddad enfrenta Tarcísio em uma disputa estadual difícil; Patrus está atrás de Cleitinho nas pesquisas; e Paes lidera a corrida estadual, mas pertence ao PSD e mantém autonomia em relação ao PT.
Há, portanto, dois modelos diferentes de palanque. Flávio tenta aproveitar a identidade nacional do bolsonarismo para puxar candidatos estaduais de direita. Lula procura usar a estrutura de governo, a marca do PT e alianças com forças do centro para preservar ou ampliar sua votação em estados nos quais Bolsonaro foi competitivo em 2022.
O dado mais importante, contudo, é que nenhum dos dois lados parece ter o controle absoluto desses eleitorados. As pesquisas estaduais mostram uma disputa apertada justamente nos três maiores colégios eleitorais do país. E a pesquisa nacional mais recente da Quaest reforça a mesma tendência: divulgada em 7 de setembro, ela apontou empate numérico de 41% entre Lula e Flávio em um eventual segundo turno, com margem de erro de dois pontos percentuais.
O “Triângulo das Bermudas”, portanto, não é apenas uma concentração de votos. É o ponto em que três fenômenos eleitorais se encontram: o peso demográfico do Sudeste, a consolidação de uma direita competitiva desde 2018 e a capacidade de Lula de recuperar terreno em estados onde Bolsonaro venceu em 2022.
Se Flávio conseguir reproduzir no trio uma parcela significativa da vantagem que Bolsonaro teve em São Paulo e no Rio e transformar a quase igualdade de Minas em vitória, terá uma fonte decisiva de votos para uma eventual vitória nacional. Se Lula reduzir ainda mais as diferenças nesses estados — ou voltar a vencer Minas com margem suficiente —, poderá neutralizar parte da vantagem que a direita construiu no Sudeste.
É por isso que São Paulo, Minas Gerais e Rio de Janeiro podem funcionar, mais uma vez, como o grande campo de batalha da eleição presidencial. Em uma disputa nacional que caminha para uma margem estreita, poucos pontos percentuais nesses três estados podem representar milhões de votos e decidir quem chegará à Presidência em 2027.