Eleição após eleição, o número de brasileiros que deixam de comparecer às urnas chama a atenção e se consolida como um dos fatores importantes para compreender o comportamento do eleitorado. No pleito presidencial deste ano, a abstenção atingiu cerca de 33,5 milhões de eleitores, aproximadamente um em cada cinco brasileiros aptos a votar, formando um contingente expressivo que pode influenciar o resultado do segundo turno entre Flávio Bolsonaro (PL) e Lula (PT).
Longe de constituir um grupo homogêneo, os eleitores ausentes reúnem perfis, interesses e motivações bastante distintos. Há quem deixe de votar por dificuldades de deslocamento, compromissos profissionais, problemas de saúde ou falta de recursos para viajar até o domicílio eleitoral. Também existem eleitores desiludidos com a política, insatisfeitos com os candidatos ou convencidos de que seu voto terá pouco impacto no resultado. Em outros casos, a ausência decorre de dificuldades para regularizar a situação eleitoral ou de uma decisão deliberada de não participar da disputa.
Compreender essas diferenças será fundamental para avaliar o potencial de mobilização no segundo turno. Uma parcela dos ausentes pode ser alcançada por campanhas que apresentem propostas concretas para melhorar a renda, ampliar oportunidades de emprego, reduzir o custo de vida e fortalecer os serviços públicos. Outra pode reagir mais intensamente a temas como segurança pública, corrupção, valores conservadores, liberdades individuais e rejeição ao governo em exercício.
Para Flávio Bolsonaro, a estratégia de aproximação com esse eleitorado pode passar pela continuidade do discurso associado ao bolsonarismo, com ênfase em segurança, combate à corrupção, conservadorismo e críticas à administração petista. O candidato também poderá buscar votos entre eleitores que se afastaram das urnas por insatisfação com a economia ou por desejo de mudança política. O desafio será demonstrar que sua candidatura oferece respostas concretas a essas preocupações e ampliar sua aceitação para além da base mais fiel do ex-presidente Jair Bolsonaro.
Lula, por sua vez, poderá tentar atrair ausentes com uma agenda voltada à proteção do poder de compra, à geração de empregos, aos programas sociais e à defesa de serviços públicos. O presidente também terá de convencer eleitores que não compareceram por frustração com a política ou com os resultados de seu governo de que ainda existem razões para participar da escolha. Nesse cenário, a apresentação de resultados verificáveis, compromissos econômicos claros e propostas direcionadas às necessidades cotidianas poderá ser decisiva.
Há, entretanto, um limite importante nessa disputa: a abstenção não representa automaticamente uma reserva de votos disponíveis para qualquer candidato. Parte dos eleitores ausentes pode manter uma posição de rejeição aos dois concorrentes, enquanto outra parcela simplesmente não dispõe das condições necessárias para comparecer. Além disso, a intenção de voto entre os ausentes não pode ser deduzida apenas a partir do resultado do primeiro turno. É necessário observar pesquisas eleitorais, recortes demográficos e territoriais e os motivos declarados para a ausência.
O pleito também pode ser interpretado como uma espécie de terceiro turno de 2022, na medida em que recupera divisões políticas, identidades partidárias e disputas simbólicas que marcaram a eleição anterior. Essa leitura, porém, não significa que o eleitorado permaneça congelado desde então. Mudanças nas condições econômicas, na avaliação do governo, na percepção de segurança e na confiança nas instituições podem alterar preferências e níveis de engajamento.
Para identificar o potencial real de mobilização, é necessário cruzar os números de comparecimento e abstenção com os resultados por estado e município, o desempenho dos candidatos no primeiro turno, os votos brancos e nulos e as pesquisas sobre rejeição e intenção de voto. Também importa distinguir os eleitores que faltaram por impedimentos práticos daqueles que se ausentaram por desinteresse ou protesto político. Esses grupos exigem estratégias diferentes e podem responder de maneiras distintas aos acontecimentos da campanha.
Entre os fatos novos capazes de mobilizar o eleitorado estão mudanças significativas nos indicadores econômicos, anúncios de medidas com impacto direto na renda das famílias, episódios de grande repercussão envolvendo segurança pública, denúncias de corrupção acompanhadas de evidências consistentes, debates presidenciais e manifestações de apoio de lideranças com influência regional. Declarações controversas, crises políticas e acontecimentos internacionais também podem alterar o ambiente eleitoral, sobretudo quando repercutem sobre preocupações já presentes entre os eleitores.
O efeito desses acontecimentos, contudo, não é necessariamente uniforme. Uma notícia pode estimular a participação de apoiadores de um candidato e, ao mesmo tempo, aumentar a rejeição entre eleitores indecisos. Da mesma forma, uma campanha concentrada em ataques ao adversário pode reforçar convicções existentes sem convencer quem se afastou da política. Para conquistar parte dos ausentes, os candidatos precisarão combinar mobilização de suas bases com argumentos capazes de alcançar eleitores menos engajados.
A reta final, portanto, não será definida apenas pela capacidade de transferir votos de candidatos derrotados no primeiro turno. Lula e Flávio Bolsonaro também terão de avaliar quem permaneceu fora da disputa, por quais razões e em que condições poderia voltar às urnas. Em uma eleição polarizada, o desafio será transformar insatisfação, indiferença ou impedimentos práticos em participação efetiva — sem presumir que os milhões de brasileiros ausentes constituam um bloco político único ou que estejam naturalmente inclinados a apoiar qualquer um dos dois concorrentes.