A polarização política que marca o país pode dificultar a compreensão sobre o que de fato ocorre na disputa presidencial de 2026. Uma análise do jornalista Pedro Doria, do Canal Meio, aponta que o senso comum pode levar a interpretações equivocadas sobre a origem dos votos dos dois candidatos mais votados para a Presidência da República.
Segundo Doria, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT), candidato à reeleição, não ampliou sua vantagem entre os grupos que tradicionalmente compõem sua base eleitoral. O petista cresceu entre eleitores das classes A e B, moradores de bairros nobres e de grandes cidades, mas perdeu espaço entre a população da periferia, da classe C e de municípios médios e pequenos. Entre as classes de menor renda, Lula venceu apenas na classe E.
Flávio Bolsonaro (PL), por sua vez, que herdou parte do espólio político do pai, Jair Bolsonaro, teve desempenho expressivo entre o eleitor brasileiro de classe média. O candidato ampliou sua votação principalmente entre eleitores da classe C, em cidades com menos de 10 mil eleitores e em municípios de até 50 mil habitantes, inclusive no interior do Nordeste. De acordo com Doria, Flávio também teve desempenho superior ao do pai: recebeu mais votos que Jair Bolsonaro em nove de cada dez locais de votação.
A hipótese de que o voto evangélico teria sido decisivo para a vantagem de Flávio também não explicaria, segundo a análise, o resultado. Os dados indicam que o apoio dos eleitores evangélicos ao candidato do PL permaneceu em nível semelhante ao registrado em 2022, quando Jair Bolsonaro disputou a reeleição.
A principal mudança teria ocorrido entre os católicos. Segundo Doria, esse grupo não aderiu à narrativa explorada por setores do eleitorado lulista de que Flávio Bolsonaro teria um projeto para retirar de Nossa Senhora Aparecida o título de padroeira do Brasil. O candidato do PL teria conquistado cerca de 4 milhões de votos entre católicos, enquanto Lula teria perdido aproximadamente 5 milhões nesse segmento.
A abstenção, apontada por Lula como uma possível fonte para recuperar votos no segundo turno, também não explicaria a mudança. O índice ficou em 20,8%, mantendo-se próximo da média registrada em 2022.
Com base nesses dados, Doria traça o perfil de parte dos novos eleitores bolsonaristas em 2026: brasileiros da classe C, de menor renda, mas não entre os mais pobres, católicos e moradores de cidades médias. Esse grupo se soma à base bolsonarista já existente, que na eleição anterior havia demonstrado que a vantagem de Lula sobre Bolsonaro era menor do que se imaginava. Em 2022, Lula foi eleito com 60.341.333 votos, contra 58.203.620 de Bolsonaro.
Na avaliação de Doria, parte dessa migração pode estar relacionada a decisões e estratégias do governo Lula. Entre os exemplos citados estão a taxação de produtos importados, que, segundo o jornalista, representavam não apenas uma fonte de renda, mas também um símbolo de status para parcelas das classes mais baixas; a tentativa de compensar a perda de arrecadação com medidas voltadas às apostas esportivas; e a proposta de enquadrar trabalhadores de aplicativos nas regras da CLT, medida que não corresponderia aos interesses de parte dessa categoria.
A menos de 20 dias do segundo turno, o cenário coloca duas questões para as campanhas: onde Flávio Bolsonaro poderá buscar novos votos e como Lula pretende recuperar os eleitores que deixou pelo caminho.