A candidatura de Augusto Cury à Presidência da República ganhou força nas últimas semanas e passou a movimentar a disputa eleitoral de 2026. O candidato do Avante, que antes do início oficial da campanha aparecia com baixos índices nas pesquisas, avançou nas intenções de voto e passou a ocupar a terceira colocação em alguns levantamentos, à frente de nomes com trajetória política consolidada.
O crescimento também foi expressivo nas redes sociais. Após o primeiro debate presidencial, realizado em agosto, Cury ganhou cerca de 2,5 milhões de seguidores no Instagram em duas semanas, ultrapassando a marca de 10 milhões. Levantamentos de monitoramento digital também registraram forte aumento nas menções ao candidato e nas buscas por seu nome.
A trajetória de Cury é diferente da dos principais adversários. Nascido em Colina, no interior de São Paulo, em 1958, ele é médico psiquiatra formado pela Faculdade de Medicina de São José do Rio Preto (Famerp), além de escritor e empresário. Ficou conhecido principalmente pelos livros voltados a comportamento, emoções e desenvolvimento pessoal. Suas obras ultrapassaram 35 milhões de exemplares vendidos e foram publicadas em dezenas de países.
Entre suas principais ideias está a chamada Teoria da Inteligência Multifocal, desenvolvida por Cury a partir de seus estudos sobre a formação do pensamento e a influência das emoções no comportamento. A imagem construída ao longo de décadas como escritor e especialista em saúde emocional passou a ser incorporada à campanha, que procura apresentar o candidato como uma alternativa aos grupos políticos tradicionais.
Esse perfil também ajuda a explicar parte do crescimento eleitoral. Cury tenta se posicionar fora da disputa tradicional entre petistas e bolsonaristas e utiliza um discurso de pacificação e rejeição à polarização. A própria campanha atribui o avanço à combinação entre a popularidade construída como escritor e o desgaste provocado pelo confronto entre os dois principais campos políticos.
A exposição em debates e entrevistas contribuiu para ampliar o alcance da candidatura. A participação no primeiro debate presidencial da Band foi seguida por um salto nas buscas pelo nome de Cury e por aumento significativo do engajamento nas redes. A aparição em outros espaços de grande audiência, como o Jornal Nacional, também ajudou a levar sua imagem de escritor e psiquiatra para o contexto eleitoral.
O fenômeno passou a afetar principalmente os candidatos que disputavam o espaço de terceira via. Ronaldo Caiado (PSD), Romeu Zema (Novo) e outros nomes que buscavam se apresentar como alternativas à polarização passaram a enfrentar a concorrência de Cury por uma parcela do eleitorado que não se identifica diretamente com Lula (PT) ou Flávio Bolsonaro (PL). No Datafolha divulgado no início de setembro, Cury chegou a 8%, enquanto Caiado apareceu com 4%, Renan Santos (Missão) com 3% e Zema com 2%.
A ascensão também chamou a atenção das campanhas adversárias por causa da velocidade do crescimento nas redes. A multiplicação de vídeos de apoio publicados por influenciadores e o aumento repentino do número de seguidores levantaram suspeitas sobre a origem da movimentação digital. A equipe de Cury nega irregularidades e afirma que o crescimento não foi resultado de impulsionamento oficial da campanha.
Mais recentemente, a discussão ganhou outro componente: a Folha identificou mais de 60 anúncios favoráveis a Cury impulsionados por terceiros, prática proibida pela legislação eleitoral. Segundo o levantamento, parte dos conteúdos foi posteriormente removida. A campanha afirma não ter conhecimento ou envolvimento com as irregularidades apontadas.
O avanço de Cury, portanto, combina fatores distintos: uma base prévia de milhões de seguidores construída durante sua carreira como escritor, maior exposição proporcionada pela campanha presidencial, forte circulação de conteúdo nas redes, rejeição à polarização e busca de uma parcela do eleitorado por alternativas aos dois grupos que dominam a disputa. O desafio agora é transformar a visibilidade digital em apoio eleitoral consistente até o primeiro turno.