A menos de um mês do primeiro turno das eleições de 2026, Lula (PT) e Flávio Bolsonaro (PL) intensificaram a disputa pela narrativa política em torno da crise que envolve o Supremo Tribunal Federal (STF), o caso Banco Master e as investigações relacionadas ao INSS. A sessão de terça-feira (15), marcada por confrontos entre ministros da Corte, ampliou um tema que já vinha sendo explorado pelas duas campanhas e passou a ocupar espaço importante no debate eleitoral.
Lula tem procurado associar a crise ao campo político ligado à família Bolsonaro. Em entrevistas recentes, o presidente afirmou que o caso Banco Master deve ser investigado e atribuiu ao governo Jair Bolsonaro responsabilidade política pelo contexto em que o banco foi criado e pelas suspeitas investigadas. Também defendeu que as situações envolvendo diferentes integrantes do STF sejam analisadas conjuntamente.
A campanha petista, ao mesmo tempo, ampliou a presença de Lula em entrevistas, viagens e redes sociais. A estratégia inclui mobilização de segmentos específicos do eleitorado e uma mudança gradual de foco para temas como economia e segurança pública, além da tentativa de apresentar o adversário como representante da continuidade política do bolsonarismo.
Flávio Bolsonaro, por sua vez, tem explorado a crise do STF para estabelecer uma associação entre Lula, o governo e os ministros da Corte. O candidato procura deslocar o centro do debate para a relação política entre o presidente e o Supremo, enquanto evita que a discussão eleitoral fique concentrada exclusivamente nas acusações relacionadas ao Banco Master.
O episódio também passou a fazer parte da mobilização digital das campanhas. A equipe de Lula acionou o Tribunal Superior Eleitoral (TSE) contra o que classificou como uma estrutura coordenada de perfis no Instagram para ampliar conteúdos favoráveis a Flávio. A ação cita 492 perfis e 1.826 publicações colaborativas em um intervalo de dez dias. As alegações ainda dependem de apuração e decisão da Justiça Eleitoral.
Do lado de Flávio, a estratégia de comunicação passou a enfatizar a ideia de crescimento da candidatura e a busca pelo voto útil. Integrantes da campanha trabalham para transformar os avanços registrados em alguns levantamentos em percepção de competitividade, especialmente na reta final da disputa.
O que as pesquisas mostram
Os primeiros sinais da opinião pública indicam uma disputa acirrada, mas os resultados variam significativamente conforme o instituto, a metodologia, a data da coleta e o cenário testado.
Na pesquisa CNT/MDA realizada entre 9 e 13 de setembro, Lula aparecia com 40,6% das intenções de voto no primeiro turno, contra 30,4% de Flávio. O levantamento ouviu 2.002 pessoas presencialmente e tinha margem de erro de 2,2 pontos percentuais. Na mesma pesquisa, 20,9% dos entrevistados ainda se declaravam indecisos.
Outros levantamentos divulgados em setembro apresentaram uma distância menor entre os dois candidatos. Uma compilação publicada pelo UOL mostrou cenários de primeiro turno nos quais Lula aparecia à frente ou em empate técnico com Flávio, dependendo do instituto. No segundo turno, os levantamentos também apontavam resultados próximos, com diferenças dentro ou próximas das margens de erro.
Pesquisa BTG/Nexus divulgada em 21 de setembro, por exemplo, registrou Lula com 46% e Flávio com 45% em um cenário de segundo turno. Já uma pesquisa Real Time Big Data divulgada na mesma data apontou Flávio com 61% e Lula com 30% em eventual segundo turno no Paraná, mostrando como os resultados regionais podem ser bastante diferentes dos números nacionais.
Os dados de rejeição também mostram que os dois candidatos enfrentam resistência significativa. Pesquisa BTG/Nexus divulgada em 21 de setembro apontou rejeição de 50% para Flávio e 49% para Lula. Outro levantamento, do PoderData/Aya, realizado entre 13 e 16 de setembro, registrou 50% de rejeição a Lula e 46% a Flávio.
A crise entra na campanha, mas não explica sozinha o eleitorado
A crise do STF oferece às duas candidaturas uma oportunidade de reforçar narrativas que já fazem parte da disputa: de um lado, a tentativa de vincular Flávio e o grupo político de sua família às controvérsias envolvendo Banco Master e outras investigações; de outro, a estratégia de associar Lula ao STF e questionar a proximidade do presidente com ministros da Corte.
Ainda não é possível, porém, atribuir às recentes turbulências no Supremo uma mudança específica nas intenções de voto. As pesquisas disponíveis foram realizadas em períodos diferentes e capturam simultaneamente fatores como economia, segurança, avaliação do governo, rejeição aos candidatos e a própria polarização entre PT e bolsonarismo.
O cenário a menos de um mês do primeiro turno, portanto, é de forte mobilização das duas campanhas e de disputa intensa pela interpretação dos acontecimentos. A crise institucional tornou-se parte relevante da comunicação eleitoral, mas os levantamentos disponíveis mostram um eleitorado dividido e resultados que variam conforme a pesquisa e a região.