O que os candidatos à Presidência propõem para reduzir filas, ampliar vacinação e melhorar o SUS

As filas para consultas, exames e atendimento especializado estão entre os principais desafios do Sistema Único de Saúde (SUS). Um levantamento realizado pelo jornal O Globo em 2025 apontou espera média de 57 dias para consultas, com diferenças entre os estados e casos em que o prazo ultrapassa cinco meses.

Ao mesmo tempo, o SUS é responsável por uma ampla rede de atenção básica, vacinação, atendimento hospitalar e distribuição de medicamentos. Para as eleições de 2026, os planos de governo dos candidatos à Presidência apresentam propostas diferentes para ampliar a capacidade de atendimento, reorganizar as filas, aumentar a cobertura vacinal e qualificar a formação de profissionais de saúde.

Entre os seis candidatos com maior presença nas pesquisas e nos levantamentos comparativos dos programas de governo estão Luiz Inácio Lula da Silva (PT), Flávio Bolsonaro (PL), Ronaldo Caiado (PSD), Romeu Zema (Novo), Renan Santos (Missão) e Augusto Cury (Avante). Os documentos apresentados ao Tribunal Superior Eleitoral (TSE) também mostram pontos de convergência, como a digitalização dos serviços e a ampliação do prontuário eletrônico.

Lula: Mais Médicos, atenção básica e redução das filas

O plano de governo de Luiz Inácio Lula da Silva prevê o fortalecimento da atenção primária, com ampliação das equipes multiprofissionais e do programa Mais Médicos. A proposta também prevê maior utilização de teleconsultas e ferramentas digitais nas unidades básicas de saúde.

Para o atendimento especializado, o programa prevê a continuidade do Agora Tem Especialistas, com ampliação da oferta de consultas, exames e cirurgias e utilização de parcerias com hospitais privados. Outra proposta é organizar uma fila única digital baseada no risco clínico, permitindo que pacientes em situações mais graves tenham prioridade.

Na área de tecnologia, Lula propõe consolidar um prontuário único para os usuários do SUS, integrando informações por meio da Rede Nacional de Dados em Saúde. O plano também prevê o uso de inteligência artificial para auxiliar na triagem e na regulação dos pacientes.

Para a vacinação, o programa prevê ampliar a cobertura, incluir novas vacinas no calendário do SUS e aumentar a vacinação nas escolas. Entre as medidas citadas estão ações relacionadas a vacinas contra dengue, vírus sincicial respiratório (VSR) e HPV.

Na formação médica, a proposta inclui a expansão do Mais Médicos e o estímulo à formação de especialistas em medicina de família e comunidade. A política federal já em execução também prevê bolsas de residência e formação de especialistas em áreas consideradas prioritárias para o SUS. UUnmasked+1

Flávio Bolsonaro: prontuário único, IA e parcerias com a rede privada

Flávio Bolsonaro propõe ampliar a digitalização do SUS e criar um prontuário eletrônico único vinculado ao CPF e integrado ao Gov.br. O sistema reuniria informações sobre consultas, exames, vacinas e prescrições e seria interoperável entre as redes pública e privada, mediante regras de consentimento e proteção de dados.

Para reduzir o tempo de espera, o plano prevê o uso de inteligência artificial para agilizar o agendamento de consultas e exames e identificar a primeira vaga disponível. O candidato também propõe ampliar a Estratégia Saúde da Família e criar um programa específico de atendimento aos idosos.

Outra proposta é a correção da tabela de procedimentos do SUS, com o objetivo declarado de melhorar a remuneração de hospitais, santas casas e clínicas que prestam serviços ao sistema público. O programa também prevê parcerias com a rede privada para ampliar a oferta de exames e atendimentos.

Na prevenção, Flávio Bolsonaro propõe ampliar o acesso a exames e manter políticas de imunização, além de incentivar a produção nacional de vacinas. O plano também prevê ações específicas para a saúde da mulher, incluindo unidades móveis de atendimento.

Caiado: atenção primária, regionalização e vacinação

Ronaldo Caiado apresenta entre suas propostas o fortalecimento da atenção primária e uma reorganização regional do atendimento. O plano prevê mecanismos para regular as filas de acordo com a prioridade clínica, além de ampliar a integração entre os diferentes níveis do SUS.

Na área de vacinação, Caiado defende uma campanha nacional para recuperar a adesão da população às vacinas. O candidato também propõe medidas de digitalização do sistema e fortalecimento da confiança nas vacinas e na ciência.

O programa prevê ainda a utilização do poder de compra do SUS para estimular a produção nacional de medicamentos, vacinas, imunobiológicos e outros insumos estratégicos. Outra frente é a criação de uma rede nacional de terapias avançadas.

Para o atendimento especializado, a proposta inclui estruturas regionais capazes de concentrar serviços e reduzir a necessidade de deslocamentos de pacientes para grandes centros. 

Zema: integração entre SUS e rede privada

Romeu Zema propõe ampliar o uso da tecnologia na saúde e integrar informações dos sistemas público e privado. A ideia é criar um registro nacional que permita aos profissionais acessar o histórico do paciente, mediante autorização.

O plano também prevê internet de qualidade nas unidades públicas, expansão da Estratégia Saúde da Família e ampliação da cobertura vacinal em todo o país.

Para reduzir as filas, Zema defende a regionalização dos serviços e parcerias com o setor privado. O programa também prevê telemedicina e prontuário eletrônico unificado.

Na atenção primária, a proposta é utilizar indicadores relacionados à redução de doenças crônicas para orientar o financiamento. O plano também prevê mudanças nas regras dos planos de saúde e maior integração entre os setores público e privado.

Renan Santos: “fila viva” e atenção primária

Renan Santos propõe substituir a fila baseada apenas na ordem cronológica por uma chamada “fila viva”. O sistema levaria em consideração fatores como gravidade da doença, risco de progressão, impacto funcional, vulnerabilidade social e tempo de espera.

Para os casos mais complexos, o plano prevê uma organização regional do atendimento, direcionando pacientes para centros de referência sem sobrecarregar unidades especializadas com demandas que poderiam ser resolvidas na atenção básica.

Na atenção primária, a meta apresentada é alcançar uma média de 80% de resolução dos casos. O programa também prevê telemedicina, diagnósticos auxiliados por inteligência artificial e um prontuário eletrônico nacional interoperável, chamado PRONTO.

Na vacinação, o programa prevê metas de cobertura para os municípios e integração de indicadores de saúde à avaliação da gestão. Também há previsão de vigilância epidemiológica preditiva e desenvolvimento de plataformas tecnológicas relacionadas a vacinas e terapias.

Augusto Cury: telemedicina e atenção básica

Augusto Cury propõe fortalecer a atenção primária como principal porta de entrada do SUS, com ampliação das equipes multiprofissionais, prevenção de doenças e acompanhamento das famílias.

Uma das principais propostas é a criação de uma plataforma pública nacional de medicina digital. A ideia é ampliar o acesso à telemedicina e permitir que pacientes de regiões com menor disponibilidade de especialistas sejam atendidos por profissionais de outras partes do país.

O programa também prevê pontos públicos de acesso à telemedicina em unidades básicas de saúde, escolas, centros comunitários e localidades rurais ou de difícil acesso.

Para diminuir filas, Cury propõe digitalizar prontuários, integrar sistemas e utilizar indicadores de desempenho na gestão do SUS. O plano também prevê avaliação permanente da qualidade dos atendimentos e atualização profissional contínua.

Na prevenção, o programa inclui vacinação, rastreamento de doenças e ampliação de exames preventivos. O candidato também defende o aumento da capacidade nacional de produção de medicamentos, vacinas e equipamentos médicos. 

Vacinação aparece nos diferentes planos

A recuperação das coberturas vacinais aparece, com diferentes formatos, nos programas dos candidatos. As propostas incluem campanhas nacionais, vacinação em escolas, busca ativa de pessoas com doses atrasadas, ampliação da produção nacional de imunizantes e uso de ferramentas digitais para acompanhar a situação vacinal.

Entre as propostas mais específicas estão a campanha nacional defendida por Caiado, a vacinação nas escolas e ampliação do calendário previstas no plano de Lula, a expansão territorial defendida por Zema e as metas municipais propostas por Renan Santos. Flávio Bolsonaro também prevê ampliar a imunização e incentivar a produção nacional de vacinas.

A formação de médicos e especialistas também aparece como parte do debate sobre a capacidade de atendimento do SUS. A estratégia federal atualmente em execução combina provimento de profissionais, formação em serviço e ampliação de vagas de residência em áreas consideradas prioritárias.

O programa Mais Médicos Especialistas, por exemplo, prevê formação em serviço para especialistas que atuam na rede pública, com foco em regiões e áreas de atendimento prioritárias. O Ministério da Saúde estabeleceu como meta ofertar 2 mil vagas de aprimoramento para especialistas na rede do SUS em 2026.

Nos planos dos candidatos, a formação aparece associada principalmente à ampliação da atenção primária, à especialização em áreas com déficit de profissionais, à educação permanente e à utilização de tecnologias no atendimento.

A discussão sobre a qualidade da formação também envolve a expansão do ensino médico e a necessidade de integrar universidades, hospitais e serviços do SUS. O Conselho Federal de Medicina tem defendido o debate sobre a qualidade técnica e ética da formação e seus efeitos sobre a segurança dos pacientes.

Pontos em comum e diferenças

Apesar das diferenças nos programas, há convergência em alguns temas. Os seis candidatos citados defendem algum tipo de prontuário eletrônico integrado, com propostas que variam quanto à abrangência e à integração com a rede privada.

Também aparecem com frequência a expansão da atenção primária, a digitalização dos serviços, a utilização de telemedicina e medidas para enfrentar as filas de consultas, exames e procedimentos.

As principais diferenças estão na forma de execução. Enquanto alguns planos enfatizam a expansão direta da estrutura pública e de programas federais, outros propõem maior participação da rede privada, uso de inteligência artificial, mudanças no financiamento ou mecanismos de remuneração vinculados a resultados.

Assim, o debate eleitoral sobre o SUS envolve não apenas a ampliação dos recursos e da oferta de profissionais, mas também diferentes propostas para organizar as filas, distribuir especialistas, recuperar a cobertura vacinal e utilizar tecnologia para integrar as informações de saúde dos pacientes.

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