A relação entre a Polícia Federal (PF) e o Supremo Tribunal Federal (STF) atravessa um período de desconfiança, marcado por divergências sobre o andamento de investigações e episódios envolvendo possíveis vazamentos de informações. O cenário se agravou na quinta-feira (6), quando os 27 superintendentes da PF divulgaram uma nota pública em apoio ao diretor-geral da corporação, Andrei Rodrigues.
A manifestação ocorreu após uma série de atritos entre a direção da PF e o ministro André Mendonça, relator de investigações relacionadas a suspeitas de fraudes no Instituto Nacional do Seguro Social (INSS) e ao empresário Fábio Luís Lula da Silva, conhecido como Lulinha, filho do presidente Luiz Inácio Lula da Silva.
Na tentativa de reduzir a tensão, o ministro da Justiça, Wellington Silva, e o advogado-geral da União, Jorge Messias, se reuniram com Mendonça na quinta-feira. A relação entre o ministro e a PF, porém, já apresentava sinais de desgaste desde fevereiro, quando Mendonça assumiu a relatoria dos inquéritos relacionados ao Banco Master, substituindo o ministro Dias Toffoli.
Divergência sobre sigilo
Em sua primeira decisão como relator, Mendonça determinou que os policiais diretamente envolvidos nas investigações não compartilhassem informações com superiores hierárquicos, incluindo Andrei Rodrigues.
A determinação estabeleceu que apenas autoridades e agentes diretamente envolvidos nos procedimentos teriam acesso às informações, que deveriam ser mantidas sob sigilo. Nos bastidores, Andrei considerou a medida desnecessária e afirmou que não interfere no trabalho realizado pelos investigadores subordinados a ele.
Desde então, outras decisões de Mendonça passaram a ser interpretadas por integrantes da PF como sinais de desconfiança em relação à corporação.
Busca em escritório de advogado
Outro episódio ocorreu na terça-feira (4), quando Mendonça autorizou uma operação de busca e apreensão no escritório do advogado Willer Tomaz. A PF suspeita que o profissional tenha participado de um esquema de lavagem de dinheiro relacionado ao senador Weverton Rocha (PDT-MA), investigado na Operação Sem Desconto, que apura fraudes no INSS.
Ao autorizar a operação, Mendonça determinou que os policiais apreendessem e analisassem somente materiais relacionados aos fatos investigados. O ministro também proibiu o acesso a documentos, mensagens e dados referentes a outros clientes do advogado que não tivessem ligação com o caso.
Weverton Rocha e Willer Tomaz negam qualquer irregularidade.
Investigação sobre Jaques Wagner
Na semana passada, Mendonça retirou o sigilo de uma investigação envolvendo o senador Jaques Wagner (PT-BA). Na decisão, o ministro levantou a possibilidade de informações sobre a operação terem sido repassadas ao parlamentar.
Sem citar nomes, Mendonça mencionou o risco de vazamentos após um dos investigados solicitar uma audiência com seu gabinete no mesmo dia em que a PF havia pedido autorização judicial para realizar buscas.
O episódio teria provocado novo desconforto entre integrantes da cúpula da PF, que interpretaram a manifestação como mais um questionamento sobre a atuação da corporação.
Disputa pelo controle das investigações
Dentro da PF, também existem questionamentos sobre decisões tomadas por Mendonça. Entre elas está a determinação para que a corporação encaminhe rapidamente ao ministro todo o material obtido nas investigações sobre suspeitas de fraudes no INSS.
Integrantes da PF teriam interpretado a medida como uma tentativa de ampliar o controle do STF sobre as investigações. Andrei Rodrigues teria recorrido à Advocacia-Geral da União (AGU) para tentar reverter determinações consideradas excessivas.
As investigações sobre possíveis desvios no INSS ganharam repercussão após surgirem suspeitas envolvendo Lulinha, que nega ter cometido crimes. Mendonça determinou a quebra de sigilos do empresário após solicitação da PF.
PT pede investigação sobre possível vazamento
Nesta sexta-feira (7), o PT apresentou uma petição a Mendonça solicitando a abertura de um inquérito para investigar um possível vazamento de áudios de conversas entre a empresária Roberta Luchsinger e Lulinha.
O partido também questionou como as gravações teriam sido obtidas pela campanha do senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ), após surgirem informações de que a campanha pretendia divulgar os áudios.
O episódio aumenta a tensão entre os diferentes atores envolvidos nas investigações. Interlocutores de Mendonça demonstram preocupação com uma possível proteção da PF a investigados, enquanto integrantes da corporação temem que o ministro possa direcionar as apurações para determinados alvos.
Na reunião realizada na quinta-feira com representantes do governo, Mendonça teria recebido a promessa de reforço das equipes da PF responsáveis por investigações de corrupção, com o objetivo de acelerar o andamento dos inquéritos.